Saudades de mim

Maristel Dias dos Santos

 

            

                Moro em um pequeno sobrado geminado. Muros e portões altos impedem a visão da rua, se estou no térreo. No pavimento superior tenho duas janelas, uma em cada quarto. Quartos que uso ao capricho, clima, desejo ou acaso, pois num deles há uma TV e, no outro, um rádio. Às vezes durmo em meio a um filme ou a uma música radiofônica. É preciso que saibam que ambos têm camas de casal. A única coisa que não gosto da vida de solteiro é da cama de solteiro.

            No quarto dos fundos, a janela se abre para sudoeste e é moldura para uma paisagem  formada por muitos telhados, muitos passarinhos, um ou outro gato  e de quebra, me oferece maravilhosos poentes  nos entardeceres sem chuva. Nos dias de chuva prefiro a outra janela. Aquela que dá vistas para a rua, para o nordeste e quer brindar-me com belos alvores, aos quais raramente assisto, pois quando o sol acorda, eu estou dormindo, geralmente. A chuva através dessa janela é coisa espetacular. Desse lado, os horizontes são mais amplos e o show que os coriscos, relâmpagos e raios, acompanhados de seus sincronizados trovões acontece, é o maior espetáculo da Terra (ou do Céu?). Se olho para baixo vejo as águas da chuva empurradas pelos ventos que sobem ou descem a rua, varrendo violentamente o asfalto. Água torrencial, enxurrada fenomenal favorecida ou dificultada  pelo declínio topográfico.  

            Por tudo isso fico mais lá em cima do que aqui embaixo, onde estou agora, junto ao computador, para compor e enviar esta crônica para o jornal. Este incorrigível animal doméstico paga para não sair de casa, mesmo porque não precisa ir longe para encontrar assunto para suas ponderações escritas. Tudo acontece aqui, sob minha janela nordestina ou sudoestina (existe essa palavra?). Hoje, três acontecimentos me emocionaram e a emoção é força motora que me leva a escrever. Três fatos fizeram lembrar de mim e, de mim, sentir saudades.

Dois irmãozinhos brincavam em torno dos carros estacionados e eu senti saudades de mim  menininha, correndo e emitindo agudíssimos gritos e altas risadas, fugindo de um irmão, numa brincadeira de pega-pega. Quase que posso ouvir a voz de minha mãe tentando conter os excessos infantis.

Logo depois uma jovem senhora passa de mãos dadas com seu filhinho, sorrindo e conversando animadamente. Não nos conhecemos, mas ela ergue os olhos para a minha janela e a metade daquele sorriso maternal sobra para mim, assim, casualmente, a toa, sem querer, o que também me faz sorrir o mesmo sorriso materno e sentir uma dolorida saudade de mim, de mim mãe, jovem e feliz, de mãos dadas com uma criança.

Um amigo querido que vem trazendo um singelo e precioso presente vira a esquina com seu carro, me vê, sorri e fala: “Ó, Julieta!” Ah! meu amigo, que saudade de mim Julieta e que bom fosse você o meu Romeu!

            Sabe, uma saudosa e cara amiga vinha semanalmente buscar-me sempre para um joguinho de cartas e quando eu a atendia  pela janela, dizia-me: “Ainda estás na gaiola?”

            É, minha amiga, continuo na gaiola, mas o mundo gira em torno dela e traz tudo o que preciso e mereço. 

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Todas as coisas...  

 

  Coisas belas, coisas tristes, coisas engraçadas,

   Coisas desgraçadas, coisas que encorajam, que apavoram,

   Coisas sentidas, sofridas, coisas da vida...

  Que qualquer um pode ver, se tem olhos de enxergar  

 Que todos podem escutar se têm ouvidos de ouvir

  Que todos podem chorar se têm lágrimas contidas

 Que qualquer um vai se alegrar se tem alma de sorrir.

Maristel