Se o mundo não acabou

 Maristel Dias

 

          

           A data já estava marcada. No dia 11 de agosto aconteceria. O quê? João não sabia, mas  a notícia se propalava por uma única voz e se a voz do povo é a voz de Deus...

          João estava preocupado e andava bem aborrecido. E aqueles seus  planos ambiciosos? Quantos objetivos havia traçado para a sua vida e agora, João? Seria esse um fim justo para tantos e aplicados anos de trabalho? Era muita frustração para aquele homem maduro, em plena vida de labuta, que não dormia mais de 4 em 24 horas, aproveitando cada minuto para fazer com afinco, serviços diversos. Consertava desde relógios até panelas e, bom motorista que era, dirigia carrões importados de madames, políticos famosos e executivos importantes para todos os cantos do país. Ia, desse modo, com a maior determinação, fazendo o seu pé de meia, pois sabia bem aonde queria chegar. Seu maior desejo era ser, um dia, o proprietário de um automóvel igual a esses que, como empregado, levava de um lado para o outro, sempre com destinos determinados pelos passageiros do banco de trás .__ “Por aqui, João!  Vire à esquerda, agora!. Venha apanhar-me às 8, certo?” E teria de ser um carrão daqueles que deslizam macios e silenciosos como se não tivessem motor. Os vidros abririam e fechariam ao toque de um dedo. Teria ar condicionado e computador a bordo. E aí, com outro tanto economizado, sairia pelas estradas do mundo, que ele próprio escolheria. Iria sozinho, claro! Tinha apenas pai e mãe já bem velhinhos e para eles, de um modo ou de outro , o fim do mundo já estava próximo. Mas para João, só pensar no  fim do mundo já era o fim do mundo! Não chegaria nunca àquelas maravilhosas praias nordestinas onde encontraria uma bela morena  a quem amaria e por quem seria amado? Não, o mundo não se acabaria antes que ele  realizasse seu único sonho.  A sorte ou o azar, Deus ou o Diabo colocava em suas mãos a oportunidade final e única. Os pensamentos perturbados giravam fazendo arder em chamas o seu cérebro. Parado diante da bomba de gasolina onde  dois ou três frentistas se esmeravam em abastecer, lavar vidros e passar flanelinhas, derretendo-se ante a beleza do carro do Prefeito, João debatia-se em pensamentos contraditórios. Devia ir à Capital buscar famoso político para importante evento na cidade. Que besteira! Que viria fazer o tal político ali, três dias antes do mundo acabar? Teria ele a solução para o terrível e implacável acontecimento? Claro que não, que idiotice! João aproximava-se do Trevo quando tomou a definitiva resolução: pegou a pista contrária! O dinheiro, suas economias, ele as trazia sempre junto ao corpo, dentro de um largo cinturão, sob a camisa. Nada podia impedi-lo. Era só prosseguir por estradas intermináveis, embalado ao som de CDs com músicas de fino gosto, vidros fechados que o separavam do mundo externo, motor quase mudo, ar condicionado... o paraíso! Parava apenas para abastecer o carro e o estômago. Se o sono batesse estacionava no acostamento por alguns instantes e já estava pronto para prosseguir. Não pensava em nada. Apenas usufruía o indescritível prazer de escolher seus próprios caminhos, sem obedecer a horários, ordens ou reclamações. Apenas seguia em frente, sempre em frente.

          De repente se vê diante de uma enorme e movimentada ponte, cheia de pessoas e policiais em estranhos uniformes. Atravessou-a sem que ninguém o incomodasse e viu-se logo dentro de caótica cidade, com um imenso movimento comercial. Onde estava? Não sabia, mas havia um cheiro de mar e acreditou estar chegando àquela praia onde sua bela morena esperava por ele. Em uma banca de jornais resolveu parar e perguntar ao seu dono o nome desse lugar. Era uma língua estranha que ali se falava e João não entendeu, nem se fez entender. Havia atravessado a fronteira e encontrava-se em outro país. No cabeçalho de um dos jornais viu a data: 13 de Agosto. Então... o dia de o mundo acabar já havia passado e o mundo não acabara? A vida continua igual, as pessoas compram e vendem, comem e dormem como sempre fizeram... e agora, João?

(sugestão para que alunos façam o seu final)

Epílogo do Autor

          João foi rodando às tontas perseguindo apenas aquele cheiro de mar. Uma lua imensa ilumina as brancas areias de uma praia plana e extensa salpicada de sombras dançantes das folhas dos coqueiros, mas deserta, solitária. Na alma de João a lua fica refletida como um pequeno ponto luminoso de esperança. Sua morena havia de estar a esperar por ele, ali, nas areias da praia, porém, só o que havia sobre a branca areia eram as sombras moventes dos coqueirais. Apertou um botão, abriu os vidros e aspirou profundamente aquela brisa tépida que vinha do mar. Bem devagar foi acelerando o carro, aproximando-se das ondas tranqüilas e mansas na orla do mar. Fixou o olhar no grande e luminoso satélite da Terra e foi ao seu encontro, mar  adentro com seu carro de sonho, porque na face prateada da lua via, indelével, a imagem da sua morena sorrindo para ele.  

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Epílogo de João Pedro Generoso- escritor amigo

Epílogo

Por João Pedro Generoso

 

            João ia dirigindo meio sem destino, enfrentando atroz debate com sua consciência: 

Como você foi tolo, João! O que fazer agora que o mundo não acabou? Todas as suas economias gastas. Seis dias dentro de um carro roubado... e agora? João, você é íntegro, apenas deslizou por um instante por causa do mundo que não acabou! João, volta! Devolve o carro, dê os pulsos às algemas e pronto! Ah? A garota? Nem pensar em levá-la, João! De que adianta se vai mesmo para a prisão? Eu sei, João... sei que são três dias a viagem de volta, portanto mais três dias de glória, mas não é justo, João. Vai sem ela. Não corra, João... Pra que a pressa? A importantíssima reunião já foi mesmo pro brejo... Você falhou na sua missão, João...  E que missão! O deputado é fortíssimo e iria levar muitos benefícios para a cidade, mesmo porque o mundo continua, meu caro João. Imagine só: dezenas de tubarões políticos aguardavam o homem. Todas as inaugurações arruinadas, tantos gastos com segurança desperdiçados... e você falhou, João! E o mundo não acabou. Que pena, João!... E seus sonhos? Como você foi tolo! Não adianta olhar para o banco ao lado. Está vazio, sim. A linda morena ficou só no sonho. É duro, não é, João? Hein? O quê vai fazer quando chegar? Ora, João, eu já disse, encoste o carrão defronte a residência do prefeito e enfrente a situação! Afinal a culpa é do mundo que não se acabou, não é verdade? Cuidado, João, não faça essa ultrapassagem! Não percebe que está sem visão, meu querido? Ou vai querer que o mundo acabe pra você nessa rodovia? Calma! Depois que sair da cadeia recomece tudo de novo, ora... O que é, João? Não tem dinheiro para abastecer o carro? Ora, vende o seu relógio! Ah? Tem ele desde a infância. E daí? Tem outra solução? O que?! O som do carro?! Nem pensar! Já basta a besteira que você fez! Vende o relógio e pronto!

 

            João chega enfim ao seu destino. Arrasado, deprimido, encosta o carro em frente da casa do prefeito. Diante da poderosa figura do homem, João está cabisbaixo, disposto a não reagir se fosse golpeado.  João é homem forte e inteligente, apesar da falha, um pouco antes do fim do mundo, que não se deu. Apesar  da coragem estremeceu quando a voz forte e estridente do prefeito soou: “Dirija-se já até a praça central, João!” João virou-se ainda cabisbaixo, tomou o rumo da rua, imaginando o que ia lhe acontecer.

 

É João, talvez vão primeiro ridicularizá-lo diante da multidão ou talvez pixá-lo e depois atear fogo. Vai, João! Coragem! Talvez apenas lhe dêem um bom castigo diante do público e depois enjaulam você. Afinal, o que você fez foi seriíssimo e o mundo não acabou... O que? Acha que o mundo acaba hoje para você? Talvez não, João. Afinal você voltou, não é mesmo?

 

            João caminhava como quem não quer chegar. Teve um arrepio quando avistou a praça. Centenas de pessoas pareciam esperá-lo. Reconheceu o deputado que conhecia por fotos e muitos outros engravatados e desgravatados. Crianças, jovens, homens e mulheres formavam como que uma barreira humana por onde, pelo visto, ele tinha de passar.

Assustado, João? Não pare. Vá em frente e enfrente a tudo e a todos. É isso mesmo, João. São eles, seus pais. Ah? Não tinham o direito de trazê-los? Mas trouxeram, João! É João... está desejando no íntimo que o mundo devia mesmo ter-se acabado há alguns dias, não é verdade? Mas não acabou! O que vão fazer com você? Não sei, mas daqui a pouco saberemos. Lá vem o prefeito ao seu encontro. Percebe os policiais ao lado dele, João? O que é isso? São fogos de artifício! Para quê? Acredito que no momento que eles estourarem seu destino será selado.

 

            De repente os morteiros são acendidos provocando um barulho imenso. Assim que cessa o barulho a multidão começa a cantar em uníssono: “Viva João, o nosso herói!” E João é condecorado com o título de herói da cidade...

            A razão? Exatamente na hora e no dia marcado para o discurso do deputado que viria trazer grandes benefícios para a cidade uma bomba relógio explodiu o local que estava vazio porque João, preocupado com o fim do mundo, falhou na missão de trazer o homem. Ele veio alguns dias depois e por causa do ocorrido decidiu homenagear seu salvador erguendo em praça pública uma estátua em sua honra e era essa cerimônia que comemoravam no exato momento que João retornava. Presenteou-o, alguns dias depois, com o carrão dos seus sonhos, muito mais requintado do que aquele que ele imaginava.

            Agora, João iria buscar a mulher que não voltou ao seu lado. Até a falha de João resultou em vitória! TUDO POR CAUSA DO DIA EM  MUNDO QUE NÃO ACABOU!!!

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