Maristel Dias dos Santos
Uma estranha dor oprime o peito.
Amarra às
costas uma pedra ardente.
Será o coração prestes a explodir?
Cansado
de bater e de apanhar...
Exausto de sofrer e de gozar...
Ah! Caro coração, velho de guerra,
Já queres abdicar? OK! Concordo...
Afinal, cuidei-te mal!
Acumulei-te, mais do que podias,
De sonhos, dores, ilusões, amores...
“Va bene, cuore mio”, podes parar...
Neste momento ideal: manhã dourada,
A casa toda limpa e arrumada,
A grama do jardim está cortada
E uma panela ferve no fogão.
Estou só... E tão acompanhada
Como convém ao último momento.
Limpei discos mofados e fi-los cantar.
Fagner, Elis, Donna Summer...
Até uma ópera escutei!
E ontem comprei flores...
A sala está florida!
Sentei-me ao sol nascente e orei:
“Nam-mio-ho-rengue-kio”
Li um artigo nas “Seleções”.
Liguei ao Ministério da Educação,
Cobrei meu direito de cidadão.
Livros e discos me circundam.
Deuses da beleza me assistem...
Sim... Este é o momento, coração.
Mas, se quiseres desistir,
Se arrependido estiveres,
Se tu queres prosseguir,
Prepara-te! Reforça-te!
Sabes bem que este teu dono é louco,
(... e ainda bebe um pouco...)
Muita enxurrada virá por aí...
Se não vais mais parar,
Quanto terás de amar!...
...Seguuuura, coração!...