O sonho
e a realidade
Maristel Dias
“Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só”,
“Mas sonho que se sonha junto é realidade”.
Era um sonho. Desses que a gente pensa que nunca deixará de ser apenas um sonho. Foi um sonho que hoje se fez realidade. E agora descubro o quanto fui ingrata com a vida, nas muitas vezes imaginando que ela nada mais tinha a me oferecer. Para entender é preciso voltar ao passado.
Há 50 anos...
... a casa de meus pais era uma casa de festas. Eles preferiam que nós, suas lindas filhas – 7 moças, recebêssemos os amigos em vez de sairmos de casa.Então, eram constantes as reuniões e saraus e pequenos bailes que ali se realizavam. Aí, as grandes salas de jantar e a de visitas despiam-se de alguns de seus móveis para transformarem-se em locais das festas, saraus e bailes. Na vitrola os boleros enchiam o ar de sons e os pares dançavam fazendo coros sussurrados: besa-me, besa-me mucho... e foi nos braços de um lindo rapaz louro de olhos muito azuis que eu ia bolerando...um pra cá e dois pra lá... como si fuera esta noche la última vez...besa-me, besa-me mucho... Mamãe e papai, a postos, observavam atentos. Ao me soltar dos braços do meu par, mamãe leva-me para um canto para chamar-me à atenção: menina, eu vi como você e xxxxx dançavam.Você se esquece que tem um namorado? Tenha juízo, minha filha!
Nossa! Ela estava mesmo zangada! Ela deve ter percebido a aura de encantamento mútuo, meu e do xxxxx, meu lindo par.Obedeci.
Ela tinha razão, nós extrapolamos, mas a culpa foi do bolero! Recolhi-me e não mais participei da festa. Fui para o meu quarto e lá fiquei, triste e sozinha.Porém aquela noite ficou gravada em dois jovens corações.
Casei-me, tive filhos e uma certa tarde alguém do Depósito de Bebidas vinha buscar os engradados com os vasilhames que restaram de alguma comemoração, de algum aniversário de alguma das filhinhas. Quem chegava era o filho dono do Depósito. Era o lindo jovem que anos atrás, fora meu par no sarau, em casa de meus pais. Tudo bem, as caixas estavam no porão e lá fomos nós. Ele ficou esperando que eu as puxasse até a saída e as apanhou. Aí foi minha vez de sair do porão pela abertura que ficava a quase um metro do chão e ele estendeu os braços, para ajudar-me a descer. Segurei em suas mãos e saltei, mas não esperava que ele me acolhesse em seus braços e me beijasse, deixando-me sem reação pelo inesperado da surpresa. Afastei-o delicadamente e ele logo percebeu a loucura que fizera. O meu lindo par de boleros saiu rapidamente e eu dei por encerrado o fato. Nunca contei a ninguém, porém foi o segundo acontecimento gravado na alma, no coração, no cérebro ou sei lá em que parte do meu ser ficou gravado e que lá permaneceu, como uma roupa esquecida num armário velho. Nunca mais nos vimos. Ele casou-se com uma bela moça e mudou-se da cidade. Entretanto durante estes 50 anos, porque amigos comuns existiam,sempre sabíamos um do outro
Hoje...
...aquele sonho, que a meu ver, jamais passaria de um sonho tornou-se real.
Mas, afinal, qual era o tal sonho? O meu sonho era encontrar um homem, um amigo e companheiro que fosse como eu e gostasse de falar de poesia e de filosofar sobre as coisas da vida. Que tivesse a minha idade e que ainda assim, eu o achasse lindo. Impossível! Justamente eu que proclamava não gostar de velhos. Por isso considerava esse devaneio nada mais que um sonho.Desses que ficam eternamente na categoria de sonhos.Estava destinada à solidão eterna.Aconteceu que recebo um telefonema daquele moço e perguntava se eu o poderia receber para tratarmos de um assunto muito sério: a criação de uma comunidade literária da qual ele mesmo, pouco tempo atrás me convidou a ser uma das fundadoras.Isso era de meu interesse e, claro, respondi que sim, podia vir, eu o esperava.Logo ele chega, tão à vontade e natural como se tivesse estado ali todos esses anos. E de pronto declara que eu estou muito bem! Sorri, com alguma ironia, respondendo que eu tinha espelhos em casa, mas olhando-o tive de admitir: ele estava ótimo e parecia o mesmo dos velhos tempos. Quanta coisa acumulada nestes 50 anos! Quantos assuntos e motivos de falar...falar...falar. Que doce e fraterna intimidade! Saudades incomensuráveis das antigas lembranças.
Horas
e horas falando e desejando mais tempo para mais falar, afinal, não é assim
numa tarde que se coloca 50 anos em dia. Quanto carinho acumulado, resguardado,
para ser relembrado, detalhado e parecia que aqueles 50 anos não passaram por nós.
Passaram! E a prova de que realmente passaram é que voltamos a ser crianças
puras e ingênuas, o que é muito
normal, pois,afinal, aos 70 a gente volta à inocência dos 7 anos. Foi assim
que eu descobri que sonhos impossíveis podem se tornarem reais e são realidades
tão transparentes e mágicas como um sonho..............................................VIDA__OBRIGADA!
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