Ternura
antiga

Maristel Dias dos Santos
(Medalha de ouro no II Concurso de Contos e Poesias da
Biblioteca Municipal “Profa. Carolina de Moura Hildebrand” na cidade de Leme,
SP.) 1998.
Tudo começou naquela
emergente e tenebrosa idade adolescente pela qual todos passam. Era “Larissa
que amava Diogo, que amava Martinha, que amava o Guga, que amava Larissa, que
amava Diogo...” Tempo em que as paixões brotam avassaladoras trazendo toda a
força do novo, do indomável, do selvagem. Muito cedo acontece essa idade,
aqui, do lado debaixo do equador. Os adultos costumam-se esquecer que também
vivenciaram esses poucos anos alucinantes, belos e dolorosos. Nem desconfiam do
drama no qual essas crianças, filhos ou alunos, em torno de si, debatem-se.
Quem sabe, se voltassem no tempo, fazendo breve regressão, viessem a dar o
devido valor àqueles sentimentos avassaladores e pudessem, assim, ajudar
a essas crianças e até mesmo evitar tragédias tipo Romeu e Julieta. Ou
dramas menos românticos, nem por isso menos trágicos como gravidezes indesejáveis,
abortos clandestinos, marcas indeléveis nessas confusas personalidades em formação.
É a época das grandes convulsões, terríveis incertezas, erupções e
sofrimentos que, felizmente, dura pouco, mas nunca passa sem deixar marcas
profundas.
Foi assim que Larissa, que amava Diogo, que amava Martinha, que amava o Guga, que amava Larissa, que amava o Diogo, envolveu-se nesse turbilhão de sentimentos que deu início ao despertar de suas vidas amorosas.
Esta narração irá
contentar-se em acompanhar o desenrolar dos acontecimentos que envolveram
Martinha e Diogo, como principais protagonistas de uma história banal.
Martinha amava o Guga
e Diogo amava Martinha.
Guga, que pensava
amar Larissa, logo notou a pequena Martinha e apaixonou-se por ela. Martinha
tornava-se assim a vencedora. Ganhara a disputa.
Diogo
aproximou-se de Larissa, à princípio, só para fazer ciúme
àquele recente par e, aos
poucos, também se apaixonou. Desistiu de Martinha após tantas tentativas
fracassadas de conquistá-la. Ela gostava do Guga. Ora, ficasse com ele! Estava
muito feliz com Larissa! Assentaram-se os distúrbios, tudo em aparente
harmonia.
Martinha, que fora tão
cortejada por Diogo, conseguira conquistar o Guga e estava decidida que era ele
mesmo que queria. Não podia negar
que as investidas de Diogo fizeram estremecer-lhe o coração. Porém Guga a
amava e a fazia feliz. A época dos assentamentos parecia chegar e fechar aquele
confuso e atordoante ciclo do despertar das paixões. Tudo estaria muito bem não
fossem as marcas deixadas naqueles frágeis e inexperientes corações.
Vencida a primeira
etapa de estudos na cidade, Guga precisou mudar-se para a capital para dar
prosseguimento aos estudos que escolhera seguir. Sua ausência levou Martinha a
voltar-se um pouquinho para Diogo e algumas dúvidas vinham congestionar seu espírito.
O amor de Diogo fora bastante intenso e um sentimento forte e sincero sempre
mexe com o outro coração. Além disso, a ausência de Guga trazia alguma
inquietação à pequena Martinha que, algumas vezes, pensou em dar uma chance a
Diogo. Por algum motivo, mágoa talvez, por ter sido preterido, ele a
maltratava. Ela partia ferida, jurando que nunca mais. Outras vezes ele, vencido
pela fatal atração, a procurava e ela, em detrimento, o ofendia, provocando lágrimas
e sofrimento. Aquele era e continuaria a ser um caso mal resolvido. Cresceram em
idade e maturidade acompanhados sempre por aquele
sentimento contraditório de amor e mágoa.
Martinha casou-se com
Guga. Diogo casou-se com Larissa. Desse modo, Martinha e Diogo nunca mais se
falaram, mas onde quer que se encontrassem acontecia aquele choque: surpresa no
olhar, estremecimento no peito, mãos suadas. Apesar desse pequeno detalhe
formaram suas respectivas famílias e pareciam felizes com o que haviam
conquistado na vida. Uma ou outra vez o antigo sentimento voltava a incomodar e
algumas dúvidas sobrevinham. Ambos tinham convicção que, de algum modo, em
diferentes tempos, haviam-se amado. O desencontro sempre
aconteceu porque quando um ia o outro estava voltando. O tempo de ambos
era diverso. E assim foi ficando esse amor, tão concreto, encravado como um
espinho na carne.
Embora,
explicitamente, nem Guga nem Larissa tivessem a menor idéia de tais sentimentos,
cultivavam uma cordial antipatia por seus possíveis rivais. Jamais se
aproximaram. O instinto de preservação os mantinha a uma distância segura.
Cada casal ia tocando sua vidinha aparentemente feliz, mas como os grandes
amores são aqueles que não se realizam, esse sentimento foi-se cristalizando,
pairando como ameaçadora rocha sobre a cidade, projetando inquietante sombra
sobre a “felicidade geral da nação”.
Uma única vez, anos
mais tarde, um fato concreto marcou uma breve recaída.
Toca o telefone na
casa de Martinha. Ela, que velava o vespertino sono das crianças, após a saída
do marido para mais uma tarde de trabalho, corre atender. Surpreende-se ao ouvir
uma música: __ “Sim, eu não te amo
porque quero... Ah! Se eu pudesse
esqueceria... Vivo... e vivo só porque te espero... Ah! esta amargura, esta
agonia...” Era a voz
do cantor falando as palavras que alguém queria dizer. No mesmo instante teve
certeza que era Diogo quem ligava. Ouviu a música, fortemente emocionada e
tentou fazê-lo falar:
__Quem esta falando?
Por favor, diga quem é...
Uma voz sussurrada,
mas inconfundível se fez ouvir:
__Alguém... Alguém
que só queria ouvir a sua voz...
__Diogo... é você...
Que bom que ligou! Eu também queria ouvir a sua voz. Estou precisando tanto de um
amigo!...
A voz sussurrada
esqueceu que queria manter-se disfarçada e, como sempre, aconteceu o
desentendimento:
__ Amigo?! Como você
pode falar em amizade? A última coisa que desejo no mundo é ser seu amigo. Você
sabe disso!
Martinha sentiu-se
ofendida. Desligam-se os aparelhos telefônicos, mas as palavras da música
ficam ressoando em seus ouvidos: “Ah! A
rua escura, o vento frio... Esta saudade, este vazio... Esta vontade de
chorar...” Ah! Tua distância tão amiga, esta ternura tão antiga e o
desencanto de esperar... Sim... Eu não te amo porque quero... Ah! Se eu pudesse
esqueceria... Vivo... E vivo só porque te espero... Ah! Esta amargura... Esta
agonia...”.
Foi a única vez. A
última declaração de amor e guerra.
Os anos foram-se
passando inclementes, ignorantes de que uma chance deviam dar àquele frustrado
sentimento. Envelheceram.
Martinha viu seus
filhos crescerem e partirem. Ficara viúva após grave moléstia que lhe
arrebatara Guga.
Diogo também ficara
só. Também Larissa partiu antes para o infinito. Ambos viúvos, solitários,
livres, mas velhos demais para imaginar pudessem, sequer, tentar nova aproximação,
fazer renascer o antigo amor. Eram tão diferentes agora! Talvez nem se
reconhecessem mais se viessem a se encontrar. No entanto, a lembrança jamais os
abandonou. Em algum cantinho daqueles cansados corações residia uma
recordação __
“Sim... Eu não te amo porque quero...
Ah! Se eu pudesse esqueceria... Vivo... E vivo só porque te espero... Ah...”
Tarde
demais!
Martinha vivia na
grande casa que sempre habitara, em companhia de velha empregada e fiel
companheira.
Diogo optara por um
“flat” e jogava cartas com amigos, duas vezes por semana. Agora, só o que
esperavam era a vinda daquela que é a última a chegar e os levaria desta vida
que algumas frustrações lhes deixara.
Martinha há muito não
saía de casa. Cuidava de seu “hobby” predileto. Cultivava orquídeas e
preenchia com a beleza das flores o colorido que, aos poucos, ia-se desfazendo
em sua vida. Algumas pessoas envelhecem suavemente, vão-se tornando
transparentes, etéreas, pálidas como se estivessem se apagando. Já não têm
faces coradas nem lábios encarnados, sobrancelhas negras ou cabelos dourados.
Fica tudo com aquele tom acinzentado, branco, como se já se fossem
transformando em seres espirituais, numa preparação previdente. Assim estava
Martinha. Leve e tênue como pequena pluma solta no ar.
Diogo também
adquirira aqueles tons esmaecidos, mas mantinha-se ereto e majestoso em sua
forte compleição física. Permanecia fiel ao seu amor pelos automóveis e
dirigia habilmente.
Há muito, muito
tempo não se viam.
Um dia, passava Diogo
por aquela rua tranqüila e arborizada de um belo bairro, num de seus passeios
matinais quando uma mulher atira-se diante de seu carro com gestos e gritos
desesperados:
__Oh!
Senhor, por favor, ajude minha patroa que está morrendo!...
Diogo estacionou o
carro no meio fio e acompanhou a mulher que falava sem parar, contando o que
estava acontecendo de modo confuso, fazendo-o entrar na grande sala daquele
velho sobrado que, de imediato, Diogo não havia reconhecido como sendo a casa
de Martinha.
A mulher levou-o a um
dos quartos, à porta do qual ele estaca, sentindo os mesmos sinais que o
atacavam em tempos imemoriais. Era ela! Estava derreada sobre o leito desfeito.
Os cabelos esparramados sobre o travesseiro eram como neve cintilante. A cabeça
reclinada, o semblante suave, parecia adormecida ou... Morta!... Estaria morta
aquela que durante toda a sua vida acalentara seus sonhos? Que cruel esse
destino que os colocava frente a frente tão tardiamente! Seria esse o último
desencontro?
Chamou seu nome ao
mesmo tempo em que a tomava nos braços tentando arrancá-la das garras da
morte. Sentiu pulsar contra o peito um leve palpitar.
__Está viva! Vamos
correr para o hospital. Ela vive! Está apenas desacordada.
Correu com ela nos
braços em direção ao carro. Dirigiu loucamente mantendo-a recostada contra o
peito até chegar ao hospital. Entregou-a nas mãos dos médicos e enfermeiras e
por ali ficou ansioso, dolorosamente esperançoso de que iriam salvá-la. Quem
sabe ainda houvesse para eles algum tempo nesta vida? Tempo de se fazerem
felizes, de redimirem suas culpas, de tentarem um entendimento... Quem sabe?...
Algum tempo depois um
médico manda chamá-lo. A velha senhora despertara, queria conhecer seu
salvador, porém prevenia-o que devia permanecer apenas alguns minutos em seu
quarto. Estava bem mal a paciente.
Diogo entrou no
quarto levando o coração nas mãos. Martinha misturava-se à brancura dos lençóis,
quase invisível, afundada naquela cama de hospital. Não fossem os olhos...
Aqueles mesmos olhos negros e brilhantes sorrindo para ele:
__Eu devia saber...__
falou com voz sumida. __Tinha de ser você!... Como se atreveu a trazer-me para
cá? Quem o autorizou a tirar-me de casa?
Diogo sorriu. Não,
desta vez não aceitaria a provocação. Tomou-lhe as mãos. Obrigou-a calar-se
selando com os seus aqueles amados lábios.
Martinha sorriu
docemente: __Você me beijou!... Está louco?
__ Talvez, mas, por
favor, me dê esta chance... A chance de dizer que eu a amo... Que estou feliz
porque você está viva! Feliz por ter sido eu quem a encontrou...
__Ora, pare de falar.
Será que nunca percebeu que foram sempre as palavras que nos separaram? Fique
em silêncio, seu velho tolo e me abrace outra vez. Que bom ter o conforto de
seu corpo junto ao meu...
Permaneceram assim
por alguns indescritíveis momentos de felicidade e, aos poucos, Diogo sentiu-a
desfalecer e escorregar de seus braços, pela última e definitiva vez.
Baixinho, sussurrou ao seu ouvido: __ Adeus, meu amor... Adeus... Como sempre,
afinal...
No dia seguinte assistiu, de longe, ao sepultamento daquele pedaço de
seu ser que preenchera com sonhos quase que a sua vida inteira.
Tristonho e cansado
recolheu-se cedo. Em seu âmago as palavras de antiga melodia repetiam-se
teimosamente, ininterruptamente... “Ah!...
a rua escura, o vento frio... Esta saudade, este vazio... Esta vontade de
chorar... Esta ternura tão antiga... e o desencanto de esperar... Vivo... e
vivo só porque te espero...” E o velho adormeceu embalado pelas palavras
da canção. Adormeceu para não mais acordar. Nada mais havia para esperar...
FIM
Este
conto foi inspirado na música de Roberto Carlos “TERNURA ANTIGA”