Um Poema... Roubado

                                                                                                                                                 - Ronaldo Chaves -

 

 Lembro-me, senhora, de quando me pediste um poema,

um que não fosse longo, nem breve demais,

que não falasse dos sonhos que sonhavas,

mas um poema... só isso.

Lembro-te que o querias longo o suficiente para dizer:

“De todas, és a que me tem cativo, como a gaiola ao pássaro,

ainda que não sejas a mais bela;

de todas, és aquela a quem entreguei-me,

mesmo não sendo a mais forte;

a beleza e a força que trazias, no tempo em que me pediste um poema,

era a beleza de quem amava mais do que desejava ser amada

e a força de quem desejava ser amada como amava.

Vieram os anos, e perguntavas: “Onde está meu poema?”

Respondia-te: “Está  onde não pode ser visto  nem tocado,

ainda que o queira dar-te, aos olhos e às mãos, pois é longo demais;

não é poema, se poema é de ser lido;

é, antes, um muito extenso caminho de vai e vem.

Devem ser ainda escritos outros versos: nos dias alegres com a tinta da tristeza pelos dias tristes,

e, nos dias tristes, com a tinta da alegria dos dias alegres;

nas noites claras, com a pena da treva do caminho turvo e torto dos dias infelizes,

mas nas noites escuras, com a pena do sol morno e gostoso da esperança que trará novo dia...

Vê agora, senhora, que a menina que pediu um poema sonhava e o foi escrevendo

junto comigo, vida afora...

A menina que sonhava és tu, que me fizeste sorrir nos dias tristes,

que desenhaste a tristeza no meu rosto nos dias de festa...

Apenas um poema, era o que querias!

Foi-se um dia, foram-se os dias... foi-se um ano, foram-se os anos...

e, esquecida que estavas do poema, embalavas-me enquanto lhe dávamos vida.

Se o querias curto, que decepção!...

Se o querias breve, decepção maior é que te dou... Sabes por que? Por isto: se

contares os dias do ano e cada ano em que viemos, alegres ou não, desenhando

o poema que querias, o verás muito longo... longo demais, com tantos dias e anos

desde que o pediste a mim.

E agora, menina ou senhora, não o posso dar-te ainda, está incompleto; é preciso que

esperes; até quando, não sei...

Não, não está terminado; vamos dando-lhe forma com os novos dias, com os novos anos...

É, contudo, um poema, belo como o pediste, ainda que longo aos teus olhos; aos  meus,

porém, muito, muito breve, pois dou-me conta de que já se foram duas dezenas de anos...

Ah! sobra-me um suspiro. Breve demais!...

Não te parece, como a mim, que foi ontem que o pediste?

Eu, de cá, vejo ainda o sorriso que sorrias quando me pediste um poema!

Por esta razão eu disse que teu poema está onde não pode ser visto nem tocado,

pois está no caminho que fizemos juntos, nos dias alegres ou tristes, nas noites claras

ou escuras, em cada passo que demos...

Será, então, no momento derradeiro, naquele instante último, quando fechar os olhos,

que o entregarei a ti: deverás vê-lo escrito nos dois pares de rastros que deixamos,

nas estradas aplainadas ou não, nas subidas e nas descidas, nas curvas ou retas,

entre campos perfumados ou nos vales de espinhos, mas sempre, sempre, nos dois pares

de rastros... Só então te direi:

Teu poema, senhora, está aí, nesse caminho...