Uma
Carta (MD)
.
MD.
Poucas
palavras. As muitas eu já as queimei. Tentarei, ao menos, usar o mesmo envelope
daquela que ia levar você a me odiar. Você ordenou que eu não o fizesse, obedeci,
portanto jamais saberá o que ela continha. Após falar com você ao telefone,
após descobrir que sofria tanto quanto eu decidi mudar o conteúdo e outra
decisão dura como um diamante tomou conta de mim. Esta eu posso e devo lhe
contar. Nada de juramentos nem promessas. Apenas uma constatação definitiva:
você é meu último e maior amor. Sei que já ouviu mil vezes de minha boca,
das teclas do meu computador, das pontas do meu lápis e de minha caneta,
entretanto nem eu mesma sabia e descobri após
aquele telefonema. Eu me estendi de costas, na cama e puxei o edredom
cor-de-rosa sob o meu queixo e olhei demoradamente o teto. Foi aí, então, que
me senti purificada, intocada e intocável como uma virgem, como uma santa que
se guarda, cristalina, para o seu Senhor. Há
exatos cinco meses suas mãos tocaram meu corpo, sua pele colou-se em minha pele
e como se tivesse acontecido uma gestação de tempo, ela nasceu. Nasceu
perfeita, com cinco dedinhos em cada mão e cinco dedinhos em cada pé e linda,
molhada de lágrimas que serviram para lavar todas as impurezas do parto. Nasceu
a Certeza que agora posso colocar em suas mãos, em seus braços, recostá-la em
seu peito; “Olha, papai, que linda”! Seu nome é Certeza. Certeza que as
marcas que você deixou em mim nunca serão apagadas por outras mãos. Aperte
contra o seu corpo a Certeza, que ela é toda sua e não haverá teste de
paternidade que negará esta realidade. Ela crescerá entre nós dois e me fará
feliz.Não permitirei que ninguém macule a beleza da Certeza de que nunca amei
e nunca amarei ninguém, neste ou em outro mundo, como amei você.Perdoe todo o
mal que meu ciúme, minha possessividade lhe fez. Em troca, eu perdôo todas as
dúvidas e palavras injustas que você tenha dito ou pensado.
FIM