Uma carta de despedida

            Antes de transcrevê-la tenho que contar os fatos que a precederam.

Em sua última visita ele me  viu usando uma jóia, e notou, porque sabia que há muitos anos,  após uma incrível experiência extra corpórea, desfiz-me de todo e qualquer adereço, dando para as filhas, pois não mais conseguia exibir em meu corpo esses objetos tão inúteis. Era apenas um retorcido de ouro ao qual eu tentava me habituar, presente de Natal de uma das meninas (todas já rodeando os 40 anos... minhas meninas...).

                        Tirei-o do meu dedo médio e coloquei-o em seu dedo mínimo. Ficou lindo o contraste  dourado em sua pele morena, lisa, perfeita como é toda mão jovem e no dia de sua partida perguntei se teria coragem de usá-lo, machista ao extremo e ele confirmou, encantado. Dei-lhe o anel que daquele dia em diante passaria a ser o símbolo de nossa união, pedindo que jamais o desse para outra mulher. Ele jurou. Eu acreditei.

            Passaram-se alguns meses e mantínhamos nosso amor em constantes e absurdas contas telefônicas. Íamos nos dando conta do erro que teimávamos em cometer alimentando um sentimento quase doentio e que fatalmente tinha seus dias contados. Por que? Grandes distâncias no espaço e no tempo nos separavam. “Ele, iniciando na estrada da vida. Eu, terminando o caminho do mundo.” *Plagiando a mim mesma.

            Uma terrível discussão e a decisão de pararmos de nos falar, de nos ver, de nos amar. Mágoas, dores revelaram-se em rudes palavras e terríveis ofensas. Como se cada um fosse o culpado pela perda do outro. Então lhe pedi que me enviasse o anel, pois tinha certeza da  brevidade em que estaria em uma outra mão feminina e tão jovem quanto a dele. Não podia suportar tal imagem.

            Hoje recebi pelo correio o anel e a carta. A mais bela carta de despedida, o mais sublime selo de um amor. Ei-la:

                                                                                                Oi

Que este anel guarde todos os nossos momentos bons ou ruins, de tal forma que leve para a eternidade a nossa história e numa maldição,  todo aquele que vier a usá-lo, sinta toda a energia positiva e negativa que ele guarda, mas, acima de tudo, possa obter a experiência que adquiri enquanto meu ele era. Te amo, Maristel e sempre amarei, mas  o mais importante é que depois do tempo que estive com você, aprendi a me amar e não quero mais me destruir e destruí-la com esse relacionamento louco.

Sinto muito, mas acabou mesmo. Meus sinceros votos de felicidade. Acho que não voltaremos a nos falar, mas não fique triste. Um beijo. Adeus.

                                                                                                            Blackheart 666

 

Esse era o seu nick quando nos conhecemos pela Internet.Por isso ele encerra com essa frase:

 

Obs. VOCÊ SEMPRE SERÁ MINHA JEZABEL.

 

N.A.  Hoje eu tenho 67 anos e ele, 20.