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Maristel Dias
Ela o conheceu em seus 56 anos.
Não, bonito não era. Tinha na face sulcos profundos que denunciavam preocupações
e sisudez. Era a máscara apropriada para um importante empresário. Mas foram
os olhos! Sim, aqueles olhos azuis, vivos, inteligentes, transbordantes de
sorrisos. Muito, muito expressivos em estranho contraste com a casmurrice da
face. Foi isso que a intrigou. Toda aquela pose de homem mau era para
impressionar, atemorizar. No entanto, os olhos... Ah! Os olhos!... Límpidos,
luzentes, buliçosos, falavam coisas cuja boca não diria, que os traços do
rosto não confirmavam.
Preferiu
confiar nos olhos e nem ligou para o resto. Brincou com eles, sorriu para eles,
tomou confianças que jamais alguém ousaria. Em pouco tempo o rosto aderiu aos
olhos e já era comum ver os lábios se abrirem em um riso franco. Aí então, a
expressão amarga se diluía e todo o semblante lembrava o de um menino. E,
engraçado, gostou de ser menino e adorava fazer de conta que era. Mas só com
ela, diziam. Diziam que ela era a única feliz merecedora de tão raras dádivas.
Teria sido ela o único ser no mundo a descobrir aqueles olhos? Não fora difícil. Aqueles olhos azuis pareciam loucos para se traírem, revelarem a alma criança. Não foi difícil... Na verdade, a primeira coisa que ela viu foi aquele par de olhos azuis.
A ponte entre ela, a jovem, e
ele, o dono dos olhos azuis, era o filho do dono daqueles olhos. E, se era o moço
quem a levava, era ele mesmo que dava um jeito de retirá-la da sua presença,
no auge do entusiasmo do pobre senhor.
Um
jogo singular, cujas regras ditadas pelo filho, ela aceitava, apesar da amizade
duvidosa que este lhe oferecia, porque só assim ela podia chegar a ele. E ele,
claro, devia saber dos interesses do filho e entrava no jogo, pois desse modo
ganhava a presença dela. O moço, por sua vez, ganhava dois prêmios: a submissão
da amiga e a complacência do pai para com seus comportamentos levianos.
Outro
motivo levava aceitar essa situação insólita: os olhos de ambos, pai e filho,
tinham a mesma cor, embora faltasse nos olhos do moço a pureza que havia nos
olhos do velho.
Se
a ausência da moça se prolongasse o pai do rapaz ficava triste e mal humorado,
menos acessível aos caprichos do filho. Aí então ele a levava, embrulhada
para presente e a luz azul voltava a brilhar, o sorriso maroto renascia e ficava
tudo bem. Depois o jovem casal saía para divertirem-se noite a dentro
Um
dia, porém, ela encontrou os olhos velados, cinzentos, frios... Por trás das
vidraças azuis uma janela cinza se fechara. Motivos? Existiam, claro! É que
ela amou tanto aqueles olhos azuis que esqueceu os demais complementos e possíveis
conseqüências.
Doeu...
Sentiu-se perdida!... Examinou profundamente, fez piruetas, tirou pombos da
cartola, contou piadas, falou bem alto, bateu os pés e... Nada! As janelas
cinzas permaneceram fechadas e tudo ficou tão escuro!...
De
repente (Oh! Meu Deus!), ela descobriu que havia ficado encarcerada dentro
daquela alma, atrás daquelas janelas...