Uma lição de mestre

(Esta é a história de uma professorinha que desejou um dia fugir da frigideira e caiu no fogo)

            Começou a dar aulas aos 13 anos de idade, pois precisava preparar dois irmãos, o filho da lavadeira e mais três vizinhos para os exames de admissão ao ginásio. Aos 16 anos, antes de formar-se na Escola Normal, deu aula de português e matemática para homens e mulheres com o dobro de sua idade, em uma pequena escola particular de contabilidade. Mais tarde, já formada, trabalhou em escolas isoladas da zona rural, enfrentando intrepidamente aquelas estrada de pó e lama para alfabetizar paupérrimas crianças carentes de tudo. Sua primeira fase de professora encerrou-se aí. Casou-se e dedicou-se por longos anos a ter e criar muitos filhos, fazendo deles cidadãos úteis à Pátria e a Deus e vivenciar um casamento que se revelou fadado ao fracasso, pois era um triângulo nada amoroso: ela, ele e a bebida. A necessidade levou-a a prestar concursos, ingressar no Magistério Estadual e escolher cátedra. Prestou vestibular em Pedagogia, entrou em quarto lugar e algum tempo depois foi forçada a abandonar, pois dificuldades financeiras a impediram. Após alguns anos, entre  dedicação e amor ao "gratifigante" (gratificante+fatigante) trabalho e às infindáveis decepções na vida particular, foi levada a grave quadro de depressão psicótica. Foram duas tentativas frustradas de suicídio. Sofria demais a cada final de ano por ter de separar-se dos pupilos aos quais dedicava-se com devoção. Eram perdas demais para sua frágil capacidade emocional. Pediu uma readaptação, passou a trabalhar nos bastidores da escola e foi então que descobriu ter caído da frigideira diretamente no fogo. Ouvir um diretor, cujo dever era orientar e proteger suas professoras, referir-se a elas como “aquelas vacas”, tomar conhecimento dos conchavos que fazem entre si com relação às faltas ou licenças médicas, constatar o mau uso do dinheiro arrecadado pelas cantinas e APMs e ao abuso da merenda escolar,   descobrir, para sua desgraça, que a corrupção começa na escola, foi muito decepcionante. Aconselharam - na a mudar de escola. Não! Não podia arriscar-se a novas dores. Havia chegado ao fim de sua capacidade de perder esperanças no semelhante. Agora, velha professora, em irregular situação, nem aposentada, nem em exercício, numa constante situação de “readaptada”, totalmente “desadaptada”, em constantes licenças médicas, vê no chão todo idealismo transformado em pó. Se em algum ponto esta historia é exemplar reside no fato de descobrir que a nobreza de uma escola está em sua parte menos valorizada__ dentro das salas de aula. É na interação mestre/aluno que acontece a realização e isto pode acontecer sob uma árvore ou em um estábulo, a exemplo do local escolhido pelo filho de Deus para nascer. O lado burocrático e fiscalizador do mestre/escola chega a ser uma ofensa à dedicação e idealismo do professor que, em sua maioria, trabalha, quase que só, por AMOR.  

Maristel Dias dos Santos