Uma vida feliz

(ser mãe é sofrer no paraíso?!)

Parte 1

__ Acho estranho quando conheço alguém

Que não tem ninguém.Nem pai, nem mãe,

 Nem filhos ou irmãos...Ninguém...

Parece-me estranho, a mim que tenho tudo,

Uma família que sempre traz alegrias,

Às vezes, algum problema, mas sempre vem. 

Sou jovem, sou bonita, sou amada, sou feliz!

 

E quem não tem ninguém? E quem vive só,

Neste mundo de Deus, como será viver assim?

Onde se apoiar ou nortear-se?

 

Nossos filhos precisam de nós e nos procuram

Adoro ajudá-los! Nossos  pais rezam por nós

E oração de mãe os anjos atendem...

Irmãos se reúnem no Natal

Quebram o maior pau e depois se abraçam:

__Feliz ano novo! Sabe que eu te amo”.

Que feliz eu sou!!!

Parte 2

__Envelheci, perdi bens materiais,

Doei para os meus filhos e lhes abri caminhos

Neste mundo tão cruel para pobres ou desvalidos.

Era preciso estender-lhes as mãos,

Afinal, tesouros mais preciosos já perdi:

Um filho pequenino, um pai protetor,

A mãezinha carinhosa, marido,irmãos.

Perdi meus amores e vivo perguntando

Onde estão vocês que eram a minha vida?

Porque me deixaram tão só?

Nesta casa tão grande, tão vazia,

Tão silenciosa como o buraco

Onde os enterrei, onde escondi seus corpos

Com medo de vê-los decompostos,

Pelos vermes devorados. Enterrei-os para me poupar.

Dignamente foram sepultados.

Que feliz eu sou!!

Parte 3

__Levaram-me da velha casa

Temem um tombo, uma queda,

Um mal súbito e que eu morra sozinha

Que tolice! Ninguém morre acompanhado.

Mas vou, para deixá-los mais tranqüilos.

Claro, a casa da minha filha é minha também

Além disso, cuidarei dos netos serei útil!

E terei outra vez um mundo povoado e alegre

Que feliz eu sou!

Parte 4

__Não posso nem mais lavar louça,

As mãos trêmulas já não são confiáveis.

Um pouco surda, talvez não ouça

O choro do bebê  no andar de cima.

A curta visão não sabe consultar

A lista telefônica, nem dar o remedinho

Ao menino e se a febre voltar, para o que serve

Uma avó assim? Minha filha e o marido conversam,

pensam que adormeci nesta poltrona,

Falam baixinho para não me acordar:

 

__Melhor descobrir uma casa de repouso, claro!

Lá ela sentir-se-á bem. __Ou então,

 E aquele quartinho dos fundos? Uma empregada cuidará...

Mas não jantará conosco à mesa, hein?

__Claro que não! Que vergonha teríamos

Quando suas mãos errassem a boca

E  tudo se esparramasse pela mesa,

Sobre nossos amigos.__Claro, muito certo!

__Sabe, agora o problema é:

Começar a pagar um plano funerário

E adquirir um lote no cemitério.

__Aquele seu amigo marmorista...Não fará,

 Por bom preço, um bonito túmulo?

 __Boa idéia! Vou falar com ele...

Na primeira oportunidade!

__ É, não podemos perder tempo!

EPÍLOGO

Como se preocupam comigo!

Então, não precisarei ir a pé

 Para a última morada?

Que feliz eu sou...