Verdades,
mentiras e ilusões
Maristel
Dias
A
mala precisava ser levada para a capital e meu marido, um marido estranho, que
eu parecia não reconhecer , queria que eu e as crianças fôssemos com ele.
Mostrava-se ansioso e essa necessidade de nos levar nessa viagem parecia ser
vital. Por mais que eu tentasse entender essa premência ele nada revelava, nem
mesmo o conteúdo da tal mala. Garantia, porém, nada ter a ver com drogas ou
assemelhados, mas precisava da segurança da família para levar a efeito a tal
entrega.
Decidi
confiar e partimos. Acomodamo-nos em um hotel que de algum modo me parecia
familiar embora jamais tivesse ali estado. A bendita mala, a um canto do quarto,
olhava-me com cara de desafio. Por mais que eu perguntasse, o marido desviava o
assunto, falava coisas sem nexo e nada contava.
Na
manhã seguinte, deixamos as crianças dormindo e saímos para a misteriosa
entrega da misteriosa mala cujo destino apenas ele conhecia.
Em
meio a uma praça apareceu repentinamente um grande número de policiais, com
armas apontadas para o meu marido e exigindo brutalmente que a maldita mala lhes
fosse entregue e, ali mesmo, em meio ao povo que se juntava curioso ela foi
aberta. Fiquei boquiaberta ao ver o seu conteúdo. A mala estava cheia, até às
bordas, de notas... Dólares!
Então,
pensei, era esse o mistério. Dinheiro, dinheiro sujo, tráfico, lavagem de
dinheiro. Em meio à confusão que, em torno ia-se formando, fui me esgueirando,
deixando o marido nas mãos dos policiais e um único pensamento girava dentro
de minha cabeça conturbada: as crianças. Ia caminhando com passos trôpegos em
meio de toda aquela gente, quando sinto que alguém me ampara, oferecendo-me um
braço, um apoio. Olhei para a pessoa e pude ver uma mulher bastante forte,
grandalhona mesmo, loura, sorridente que, simpaticamente, perguntava se eu
estava bem e se podia ajudar-me. Fui-me deixando levar pela boa senhora, o tempo
todo resmungando que precisava chegar ao hotel onde estavam as crianças, porém
sentia-me completamente atordoada e não tinha a menor idéia de qual caminho
tomar para chegar ao hotel. A bondosa senhora, sempre me segurando pelo braço,
indicava-me a direção, falando palavras de consolo e encorajamento.
De
repente, fez-me parar diante de uma escadaria que descia para um prédio e
pediu-me que a acompanhasse, pois precisava dar um recado para um amigo. Ao
adentrar foi que percebi que aquilo era uma Delegacia e a “bondosa senhora”
empurrou-me para aqueles homens fardados, ao mesmo tempo em que me apontava e me
acusava de algo que eu não podia entender:
__É
ela, dizia esbravejando, estava com este revólver e atirava a esmo contra a
multidão.
Tudo
aquilo era tão absurdo que eu me vi sem voz, totalmente incapaz de negar fosse
o que fosse de tais injúrias. Parecia–me tudo uma alucinação, uma grande
loucura. Meu Deus, quem é essa mulher que eu nem conheço e ia levar-me aos
meus filhinhos? Pus-me a chorar sem poder dizer uma palavra em minha defesa. Só
falava das crianças, que sozinhas estavam, naquele estranho hotel.
Um
policial pegou a arma de sua mão e perguntou: “Quantos
disparos ela fez? Viu se alguém ficou ferido?”
A
mulher que parecia fora de si respondeu: “Deve
ter dado uns dez tiros e havia dois ou três caídos e ensangüentados”.
Eu
ouvia aquelas palavras de olhos esbugalhados, pensando que eu é que estava
ficando louca. Mas quem é essa maluca e o que quer fazer comigo? Eu só fazia
chorar e reclamar que queria os meus filhos, que eles estavam sozinhos, que,
pelo amor de Deus me levassem àquele hotel.
Logo
os homens disseram à mulher que ela já podia ir embora e aquele que estava com
a arma, aproximou-se da cadeira onde eu me encontrava arriada e só então eu
comecei a falar que aquela mulher era uma louca, que nada daquilo que ela
contara era verdade. Que, por Deus, acreditassem em mim e não me prendessem,
pois meus filhinhos... Cansados de ouvir minha ladainha fizeram um gesto para
que eu me calasse. O homem que tinha nas mãos a arma dizia aos outros que a tal
mulher era, com certeza, uma doida. A arma estava fria, não havia o menor sinal
de ter sido usada nos últimos anos e finalmente, dez tiros de um trezoitão era
impossível. Somente seis balas caberiam no tambor. OH! Como me senti aliviada.
Todos aqueles homens me tratavam gentilmente e um deles, mais gentilmente que os
outros, observava meu corpo como se me desnudasse e propunha levar-me onde eu
desejasse... Eu gemia, mais apavorada ainda, que só queria ver meus filhinhos e
implorava que me levassem ao hotel, onde com certeza as crianças, já despertas
e sozinhas, se desesperavam, e podiam sair às ruas, à procura da mãe e...
Novamente pediram que me calasse e o tal da arma, que parecia ser o Delegado,
deu ordem a dois dos outros que me encaminhassem até o carro.
De
repente, toda a sensação de pavor ia-se transformando em sensações eróticas,
não menos perigosas. Estava agora no banco de trás de um carro e os homens
voltaram para dentro do prédio, deixando-me a sós. Foi quando percebi a
aproximação de um garoto magricela e sem camisa de uns doze anos de idade que
me olhava de um modo que revelava nojentas intenções. Ele abriu a porta do
carro e entrou sorrindo, um sorriso sádico, maldoso e foi encostando-se a mim.
Num ímpeto de ódio empurrei-o com todas as minhas forças e o vi cair sobre a
calçada. Fechei a porta do carro,
pulei para o banco do motorista, pois já havia notado que as chaves estavam no
contato e saí. Ia dirigindo como louca sem o menor sentido de direção.
Assim,
como por efeito de um milagre, ou após um período de total amnésia, causada
pelos sucessivos choques, me encontro entre amigos e familiares, o marido e as
crianças. Todo mundo a me consolar e tentar explicar o inexplicável caso da
mala. Outros amigos iam chegando e entre eles meu pai, que eu imaginava morto há
muitos anos. Eu estava feliz, mas exausta e quis um quarto, uma cama, para
repousar. E para lá eu fui estender-me, aliviada, numa grande cama de casal,
completamente estranha para mim. Minha cabeça era só confusão.
Entrou
no quarto um senhor bonito e simpático que, com palavras suaves tentava me
acalmar e dizia que ali estava para impedir que quem quer que fosse, tentasse
fazer-me algum mal. Ah! Aconcheguei-me fazendo-me pequenina, contra seu corpo
forte, debruçado sobre mim, acariciando meus cabelos, meus braços e quase sem
intenção nos abraçávamos como se nos amássemos. Quanto conforto e segurança
naquele abraço, e aos poucos, quanto desejo esse abraço ia despertando em nós
dois.
Porém,
pessoas não paravam de passar por esse quarto indo para... Sabe-se lá, aonde.
Ele ergueu-se um pouco irritado, também desapareceu por algum tempo e
voltou trazendo um vestido que disse ter feito para mim. Comentei alegremente
que o decote era muito profundo e chegaria no meu umbigo. Também sorrindo
convenceu-me a prová-lo e dirigi-me então, para trás de um biombo. Enquanto
estava nua ele se aproximou e deslizou por meu corpo o seu olhar libidinoso.
Mandei-o embora enquanto me vestia e, quando saí de trás do biombo, eu o vi
aos abraços e carícias com minha cunhada, exatamente como fazia comigo. Olhei
muito zangada para ela que sem uma palavra, levantou-se e saiu. Voltei para seus
braços sem questionar seu comportamento como se nele tudo tivesse uma razão de
ser perfeitamente explicável.
Agora
eram crianças que saíam e entravam do quarto num silencioso e incomodativo silêncio.
Novamente levantou-se irritado, recompondo suas vestes, seus cabelos e apanhando
seus objetos sobre uma cômoda. Levantei-me também e envolvendo-o por de trás,
com meus braços, sugeri que fôssemos para um motel já que ali não teríamos
um minuto de sossego. Ele negou com um movimento de cabeça dizendo que estava
sem dinheiro. Estranhei e perguntei como um homem como ele saía de casa sem
levar dinheiro consigo? Explicou-me, sem muito empenho, que não havia passado
na Empresa e iria até à fazenda para buscá-lo. Achei estranho sua empresa ser
uma fazenda e perguntei onde ficava. Respondeu-me, mui naturalmente: “Em Minas
Gerais”.
Mostrei-me
aborrecida... E ele: “Não tens do que
reclamar. Já dei ordem ao João que lhe entregue todos os dias 80 litros de
leite. Fica tranqüila” Abraçou-me, beijou-me e perguntou:
“Queres ir comigo?”
Oh!
Era tudo que eu desejava embora não soubesse nem o nome desse homem. Saímos
abraçados por uma estrada e ele dizia. “Basta
caminharmos até chegarmos àquele belo e vermelho crepúsculo”. E ia
sussurrando aos meus ouvidos lindas palavras: “o fim do crepúsculo está
sempre cheio de sons que passam apressados, como se a alma das coisas estivesse
igualmente ansiosa pelo silêncio amigo do grande repouso”.
Algo
me dizia que em algum lugar eu já havia lido essas palavras, mas onde?
Nesse
momento exato ou sei lá quanto tempo depois, despertei cansada, exausta, após
essa noite de sonhos (ou pesadelos) tão estranhos.
Passei
todo o dia sob a influência das lembranças terríveis e maravilhosas de um
sonho tão concreto que me fazia confundir a realidade do dia com os
acontecimentos oníricos da noite. Estava entardecendo e eu saí caminhando na
direção oeste, num querer descobrir o elo entre a vida real e a dos sonhos.
Tinha que haver algo mais...
O
sol, por de trás das nuvens espessas e acinzentadas não era mais que uma
sombra luminosa. Ai! Solucei... Se todos os crepúsculos fossem vermelhos!...