Seu nome era Francine. Tinha cabelos naturalmente encaracolados da cor
do mel e olhos castanhos esverdeados como as folhas de outono. Traços
delicados e um sorriso sempre armado nos lábios finos e escarlates. Era
aquele tipo de menina-moleque que se pendurava nos galhos mais altos das árvores,
equilibrava-se em altos muros estreitos e corria no meio da rua, de repente
mergulhando sobre o solo e amparando-se com as mãos fazia o corpo girar no
ar, numa acrobacia genial. Era uma menina sapeca, simpática, que a todos
conquistava com seu jeito franco.
Vivia na periferia de uma pequena cidade e juntamente com pais e irmãos
sofria as agruras da pobreza. Tinha, porém uma alma iluminada e qualquer um
podia ver que esta não se transformaria, em breve, numa matrona desdentada e
maltratada como acontece com quase todas as meninas
que vivem nesse meio miserável. No mínimo transformar-se-ia em uma
rica mulher de “vida fácil” ou, se a sorte desse uma mãozinha, quem
sabe, famosa modelo e manequim. Era ainda muito jovem para sequer preocupar-se
com esse futuro incerto. Apenas ia vivendo feliz, porque era feliz por
natureza. Não a imaginem, por favor, um anjo de candura. Era terrível,
respondona e que Deus nos livrasse de sua boca quando ficava zangada e
resolvesse desfiar todos os palavrões que conhecia.
Tinha então 13 anos quando ali, naquele grande terreno baldio,
aportaram caminhões carregados de apetrechos estranhos, jaulas com animais e
uma grande lona que logo foi armada por dezenas de pessoas diferentes,
esquisitas, que Francine jamais imaginara existir. Passava horas sentada em um
tronco defronte ao local onde aquele povo bizarro movia-se rapidamente como as
formiguinhas que ela tantas vezes vira correr de um lado para o outro para
refazer o lar que ela, maldosamente, desmanchava com os pés descalços.
Aquele formigueiro humano ela não podia desfazer. Eram formigas enormes e
muito diferentes das que conhecia. Já que expulsá-las de seu território não
podia, unia-se a elas e ficava fascinada com todo aquele movimento. Ia, aos
poucos, se aproximando. Pediam-lhe água e ela corria buscar. Pediam informações
e ela esforçava-se para ser útil. Aquele pessoal estranho era também simpático
e respondia a todas as suas infindáveis perguntas. Ficou sabendo que aquilo
era um circo e que em poucos dias se daria a estréia; claro que tiveram de
lhe explicar o que era uma estréia.
Havia entre aquela gente uma menina do tamanho de Francine, linda, muito linda, mas pálida e triste, em contraste violento com a exuberância de Francine que logo se aproximou e com ela entabulou conversa. Em poucas horas já se sentiam amigas como se amigas sempre houvessem sido. Chamava-se Karen e contou que era uma das artistas do circo. Cavalgava um pônei, fazia contorcionismo e representava na peça de teatro que encerrava sempre cada função do circo. Andava, porém bem adoentada e todo o pessoal desvelava-se em cuidados para com a menina.
Francine, que já se tornara amiga de toda a “troupe”, levava-a a
passear pelos arredores e até em sua casa para que Karen conhecesse sua família.
Ali também todos gostaram dela, mas tinham certo receio daquela gente
esquisita e pediam que Francine se afastasse deles. Julgavam-nos ciganos,
daqueles que roubam criancinhas e ficavam muito assustados. Francine nem
ligava e a cada dia estreitava mais os laços da amizade que a atraía para
aquele local.
Naquela sexta-feira dar-se-ia a estréia e logo pela manhã Francine
ficou sabendo que Karen amanhecera com muita febre e não parecia estar apta
para o espetáculo de logo mais, à noite. Todos se mostravam preocupados e
foi a própria Francine que, atrevidamente, ofereceu-se para substituí-la,
pelo menos na apresentação teatral. Havia assistido aos ensaios e conhecia
de cór e salteado todas as falas. Que alívio sentiu o pessoal. Quiseram ir
conversar com seus pais, porém Francine pediu-lhes que não fizessem isso,
pois tinha certeza que eles não permitiriam. Viria sem que eles soubessem e
pronto! E assim foi. Fazia o papel de uma rica menina e ao ser vestida com
aquela roupa de tafetá azul,
sentiu-se dentro de seu próprio mundo e nesse instante decidiu que era isso
mesmo que seria um dia __ uma grande atriz. Para ajudar, desempenhou
magnificamente o papel de Karen e todos estavam contentes, mas Francine,
embora esperasse não ter sido reconhecida pelo pessoal que foi assistir ao
espetáculo, estava preocupada com a reação de seus pais quando soubessem da
sua transgressão. Nesse momento não queria pensar nisso e conversava
animadamente com todos, mas ansiosamente procurava com olhar aflito o
trapezista. Um dos integrantes da troupe era um palhaço muito magro e alto,
que mesmo durante as lides da montagem mantinha-se sempre com aquelas roupas
de palhaço e de cara pintada. Por isso Francine não conhecia seu rosto e nem
sabia que Xisto era o mesmo que saltava de um trapézio para o outro, com
vestimentas bordadas de lantejoulas, muito ajustadas ao corpo esguio e que
fascinava a menina. Achava-o lindo. O que a deixava aborrecida é que ele
nunca lhe dirigiu a palavra e a ignorava completamente, ao contrário do palhaço
Xisto que vivia agradando-a e sempre que podia ficava a conversar longamente
com ela. Gostava dele, mas o trapezista a encantava. Andava meio apaixonada
por ele. Coisa que não revelaria nem às paredes. Cansou de esperar que ele
aparecesse e como já era muito tarde, despediu-se e foi para casa. Entrou
sorrateiramente. Todos dormiam. Que alívio! Também ela adormeceu rapidamente
embalada pelos últimos felizes acontecimentos.
O dia ia transcorrendo normalmente e Francine já ficara sabendo que
Karen estava melhor e que nessa noite, com certeza, trabalharia. Ficou assim
entre alegre e triste com a notícia. Que bom Karen estar melhor! Que pena não
ter de substituí-la!
Lá pelo fim da tarde seu pai entra em casa esbravejando e quebrando
coisas em sua passagem. Francine empalideceu. Entendeu logo o motivo da ira do
pai. Ele ficara sabendo... Aí toda família reuniu-se contra ela e a menina
que nunca levara um tapa sequer, temeu ser espancada. Foi terrível. Não,
ninguém tocou nela. Seu pai saiu de casa e logo retornou. Trazia um embrulho
que abriu sobre a mesa da cozinha e, sem dizer palavra, foi retirando do
pacote uma longa corrente e dois cadeados. Com um deles prendeu a corrente a
uma argola que havia na sala onde um gancho de rede prendia-se. O outro
cadeado colocou na outra extremidade da corrente e, só então, voltando-se
para sua mulher, disse:
__ “Vê tudo que a
Francine precisa fazer antes de deitar-se. Ela vai dormir aqui na sala e esta
noite ela não sairá de casa”.
Ficaram todos muito assustados, mas
quem se atreveria a questionar a atitude de
desvelo daquele pai? Francine se pôs a chorar mansinho em um canto
isolado. Por quanto tempo ficaria ela acorrentada, presa àquela casa? Ia
morrer, estava certa que sim, morreria como aqueles animaizinhos selvagens
colocados em gaiolas. Morreria mesmo! Como aquele pai podia pensar em manter
presa uma criaturinha tão cheia de energia? Era o fim. O fim de todos os
sonhos. Adormeceu chorando, com seu tornozelo acorrentado e preso por aquele
cadeado.
A alegria veio trazida pelos sonhos. O palhaço Xisto fazia palhaçadas
para que ela risse e depois ela voava nos braços de seu trapezista,
atravessando os ares, sobre as cabeças de todos os seus algozes. De repente
sentiu-se tocada na face. Abriu os olhos e teve de reter um grito de espanto.
O palhaço Xisto curvava-se sobre ela pedindo que se mantivesse em silêncio.
Tinha nas mãos um grande alicate e imediatamente Francine entendeu que ele
viera roubá-la, como naquela canção: “E
o palhaço quem é? É ladrão de
muié”. Francine ficou exultante. Sim! Iria com o circo para
onde quer que fosse.
Naquela mesma noite, silenciosamente, todos os artistas do circo ajudaram a desarmar a grande lona e partiram sem deixar rastros, levando com eles a menina Francine, por conta e vontade próprias. Naquela mesma noite Xisto revelou-se. Contou ser o mesmo que voava entre os trapézios. Francine descobriu serem ambos a mesma pessoa e só pode dizer sim à proposta de casamento do palhaço Xisto. Foi uma linda festa de casamento que aconteceu um ano depois, em uma cidade longínqua, sob a imensa lona daquele circo.
Alguns anos se passaram e Francine ia aprendendo tudo sobre a arte
circense. Karen curou-se totalmente e acabou transformando-se numa bela moça
e com certeza tudo prosseguiria assim se, numa tarde infeliz, o belo
trapezista não tivesse se arriscado a um novo salto entre os trapézios sem a
rede de segurança. Morreu ao cair no chão e Francine morreu um bocado, também.
Perdera ao mesmo tempo seu lindo trapezista e o seu querido palhaço Xisto.
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Estavam agora acampados nos arredores de uma grande cidade. O circo
crescera muito e era, então, bem famoso. Francine que continuava na arte de
representar foi descoberta por um grande empresário do “”show business”
que veio com fabulosa proposta de trabalho. Iria ser a protagonista de uma peça
teatral que já há anos estava em cartaz e cuja atriz principal havia
desistido por outro trabalho no exterior. Toda a “troupe” incentivou-a a
aceitar e lá foi a nossa Francine, agora com novo nome e pronta para
encontrar a glória nos palcos da vida.
Para encurtar a história o diretor apaixonou-se por ela e ela por ele.
Casaram-se. Aí, foi um pulo só para tornar-se famosa até mesmo na televisão.
Ia estrelar uma novela na maior emissora do país. Vista por todo o mundo,
natural fosse que seus familiares a vissem também e desconfiassem ser aquela
bela mulher a Francine que o pessoal do circo roubara em uma noite fatídica.
Procuraram-na e também às autoridades. Recorreram a todo tipo de ajuda que
pudesse existir para elucidar o caso.
Francine, agora Victória Amanda, amada e vitoriosa, jamais admitiu ser
ou pertencer àquela família. Estavam enganados. Que fossem procurar a sua
Francine em outros recantos. Esta vitoriosa Victória é que jamais se
deixaria prender outra vez. No entanto seus pais e irmãos nunca se
convenceram, mesmo porque passaram a receber polpudas somas de dinheiro através
de envios bancários e acabaram por decidir que estava tudo bem. Era melhor
assim. Iam, aos poucos, melhorando a vida de todos e nem andavam atrás de
saber quem era o depositante de todo aquele dinheiro que mensalmente chegava
pelo banco da cidade. No fundo sabiam, sabiam muito bem e calavam-se, felizes
pelo sucesso da filha e pelo bem estar que ela, a todos, proporcionava.
A pequena Francine nunca os enganara. Tentaram prender a ave do paraíso
em uma pobre gaiola de arame, mas também eles tinham a certeza que, de
qualquer modo, perderiam - na se, entre eles, ela viesse a permanecer. Estava
tudo bem. Muito bem...
FIM