Zelo Materno
Maristel
Dias dos Santos
Faze do amor a religião sublime
Que a perfeição do sentimento encerra
E
o coração de todo mal redime.
Não movas ao amor nenhuma guerra
Ama e compreenderás o imenso crime
Dos que passaram sem amar, na terra.
(Faustino Nascimento)
Parou ao lado do carro. O seu velho e querido carro. Olhou-o longamente. Pensar que queria trocar você por outro mais novo. E agora? Você irá sobreviver a mim. Será você que trocará sua velha dona por uma mais nova. Certamente. Quando ela partisse não haveria ninguém para dirigir o carro. E o que seria de Francisco? Sem a mãe, sem o carro, sem ninguém. Quem o levaria à natação, às sessões de fisioterapia? Quem cuidaria da sua alimentação? Das lições, dos horários de escola? Não, aquilo só podia ser um sonho mau. Não podia ser verdade. Ela não tinha o direito de morrer. No máximo seis meses... No máximo seis meses... Abraçou o volante, deitou a cabeça no braço e chorou. Chorou como há muito tempo não fazia. Sim, havia a possibilidade de um transplante, mas em tão curto espaço de tempo quase que totalmente improvável. Não era morrer que a deixava, assim, arrasada. Tivera uma vida tão sofrida que a morte lhe parecia o repouso ao final de um dia tumultuado. Mas havia Francisco. Tão meigo e carinhoso! Tão dependente! No próximo mês completará 21 anos. Rosa planejara uma grande festa. E fará, apesar de tudo ou, principalmente, por causa de tudo, já que será a última que irá fazer para ele.
Francisco não é um deficiente de fato. Apenas um leve retardamento, uma limitação, mas é frágil competidor neste moderno mundo onde, para vencer, o homem tem de dispor de toda esperteza, conhecimento e força de vontade. Francisco vivia como vivem os anjos. Para ele só havia o hoje, o momento presente. Nunca Rosa ouvira de sua boca algum desejo ou plano que ultrapassasse o limite de um dia. O amanhã não existia para ele. Tinha muitos amigos. Todos gostavam dele, da sua candura, do seu desprendimento das coisas materiais. Alguns até se aproveitavam dessa sua indiferença com relação a dinheiro ou objetos. Parecia não ter esse sentimento de posse que a muitos escraviza. O que era dele era de todos. Menos os seus carrinhos de ferro, que o pai vivia trazendo para ele. Desses não abria mão, por nada deste mundo. E também não reclamava a falta do que quer que fosse. Tudo estava sempre bem para ele. Se sofresse de uma deficiência grave, fosse cego, paraplégico ou tivesse sério retardamento mental receberia o ordenado de Rosa pelo resto de sua vida sob forma de pensão e, com certeza, sempre haveria alguém disposto a gerir seus bens. Rosa era alta funcionária do Fórum e percebia excelente remuneração. Mas aquele leve atraso de desenvolvimento chegava a passar despercebido e não justificaria jamais que viesse a receber essa pensão. Quanto Rosa já havia pensado sobre isso! E agora havia chegado o temido momento. Que seria de Francisco sem a mãe que cuidava de todas as suas necessidades? Incapaz de manter-se em um trabalho regular, como sobreviveria? Sabia dirigir, sim. Tinha até carteira de motorista. Mas não fazia questão nenhuma de ir sozinho a algum lugar. Preferia sempre que a mãe o levasse ou andava a pé. Adorava caminhar.
Pobre Rosa! Era uma dessas pessoas nascidas para o sofrimento. Fora criada em um orfanato, abandonada pela mãe que nunca conhecera. Aos dezessete anos aparecera um jovem e promissor advogado no próprio orfanato que se apaixonou por ela e de lá tirou-a para casar-se. Depois de casada concluiu seus estudos assessorados pelo marido, prestou vários concursos e ingressou naquela carreira tão ligada à dele. Foi essa a fase mais feliz de toda a sua vida. Logo nasceria Francisco para completar aquela felicidade. Mas teve pouca duração o belo casamento. Quando Francisco tinha cinco anos o marido sofre grave acidente fatal. Novamente Rosa via-se desamparada. O marido falecido também era sozinho neste mundo de Deus. Perdera os pais, ainda muito jovem e fora filho único. Nem irmãos, nem avós, nem tios. Como ela, era um homem só. Entretanto, agora, ela era a provedora, a que devia amparar e para isso viveu dia após dia. O menino passou a ser a razão de sua vida. E agora ia deixá-lo. Como? Como podia ser isso?! Seu coração não conseguia entender, embora sua mente lógica lhe dissesse que um dia isso teria de acontecer. Todos morrem. Pelas leis naturais, os pais antes dos filhos. Porém esperava que por muitos anos ainda ficasse ali, cuidando de Francisco. Ela não tinha idade para morrer. Era uma mulher em plena maturidade. Nem chegaria à velhice... Não era justo! Lutaria contra essa morte que prematuramente batia à sua porta. Iria atrás desse transplante. Não queria morrer. E depois, como contar a Francisco? Ele não iria compreender essa história de morte anunciada, pré-determinada. Aquela dificuldade que ele tinha de lidar com o tempo faria com que começasse já a perder a mãe. Não, nada falaria. Novamente sozinha. Outra vez a luta solitária. Assim tinha de ser.
Rosa decidiu que sua primeira providência seria começar a incentivar a independência do filho. Ela teria de afastar-se aos poucos e forçá-lo a tomar algumas iniciativas. Ao mesmo tempo trataria de conseguir o bendito transplante. Quem teria um coração para lhe dar? Não podia perder as esperanças. Que Deus a ajudasse. No momento em que mais desejava estar ao lado do filho devia começar a afastar-se, para o seu próprio bem. Que injusto e doloroso era isso! Tinha de brigar com ele quando a vontade era abraçá-lo e mantê-lo juntinho de si. Começou por incentivá-lo a ir de carro, sozinho, para a natação. No primeiro dia, horas depois, ele voltou a pé. __Cadê o carro?! Francisco esquecera que estava de carro. Deixou-o defronte à escola.
__Volte. Vá buscá-lo. Onde estão as chaves? Ele as exibia, triunfante.
Ao
mesmo tempo tentava arrumar trabalho para ele e já sabia das dores de cabeça
que a esperavam. O despertador tocava horas e horas sem que dele Francisco
tomasse consciência. À noite, queria ficar no computador ou na televisão e
era um custo levá-lo para a cama. De manhã não havia quem o tirasse dela.
Francisco era assim...
Agora, que ela desejava ser toda doçura, tinha de mostrar-se dura, inflexível e Francisco, sem entender nada, mostrava-se magoado. Rosa trancava-se para chorar. Aquele fraco e doente coração sangrava.
Certa noite despertou, assim, à toa, de madrugada, com uma idéia que explodiu em sua mente, como se alguém lhe tivesse sussurrado as palavras em seu ouvido. Mas... Claro! Como não havia pensado nisso antes? Ali estava a solução, bem ao alcance de suas mãos. Não maltrataria mais o querido filho. Haveria de mimá-lo até seu último momento de vida e conseguiria que alguém continuasse a fazê-lo após sua partida.
A idéia era simples. Francisco tinha bons e belos amigos. Alguns até cortejavam, disfarçadamente, aquela indiferente e bonita Rosa. Era só escolher o mais indicado e casar-se com ele! Tinha de ser um amigo fiel, o melhor amigo de Francisco. Por que não um homem mais velho?! Rosa preferia confiar em gente jovem. “Ninguém é confiável depois dos trinta...”, divagava, lembrando Francisco.
Faria um contrato pré-nupcial, deixaria em mãos de um bom advogado que, ao final das contas, seria o gestor da pensão que, automaticamente, passaria a ser paga ao novo marido e ele comprometer-se-ia a dividi-la com Francisco. Pronto! Problema resolvido. Pelo menos, o mais importante para que pudesse entregar-se tranqüilamente nas mãos da fatalidade. Fechou os olhos, sorriso nos lábios, dormiu profundamente.
Pela manhã acordou como acordam os passarinhos, cantando e saltitando. Até esquecia o fraco coração. Era preciso cuidar um pouco do visual. Andara ultimamente tão relaxada com relação a sua aparência! Saiu às compras, cabeleireiro, manicuro. Comprou roupas mais juvenis e descontraídas. Seu manequim 42 favorecia tais excentricidades.
Quando Francisco acordou ela já estava de volta e linda! Francisco não estava entendendo mais nada, mas ficou muito feliz ao ver a transformação. Rosa abraçou-o e rodopiou com ele pela sala fingindo ouvir magnífica orquestra. Na verdade tinha uma orquestra enorme dentro de sua alma. Que bom... Que bom... Estavam felizes. Por quanto tempo? Não importa! Hoje Rosa seria como Francisco. O amanhã não existia.
Havia entre os rapazes amigos, um com o qual Rosa simpatizava de modo especial. Chamava-se Ivan. Era alguns anos mais velho que o filho e compartilhava com ele a devoção àquele computador. Vinha sempre ajudar Francisco quando sua imperícia travava o funcionamento da máquina. Vivia a socorrê-lo e mesmo quando o filho demorava a chamá-lo, vinha para saber como as coisas iam indo. Era respeitoso e até mesmo carinhoso para com Rosa. Seria ele o predestinado? O eleito para tão séria missão?
Fez perguntas ao filho. Do tipo: Quem é seu melhor amigo? De qual deles você gosta mais? Qual merece a sua total confiança? De todos, qual você acha que gosta mais de você? 100% de respostas favoráveis a Ivan. Então ela confidenciou ao filho que concordava plenamente e que Ivan era também o seu amigo preferido. Ficou por aí essa primeira conversa. O próximo passo seria ter uma conversa franca com Ivan e avaliar as reações do moço à tão inusitada proposta.
Precisava encontrar o rapaz sem que Francisco soubesse. Parecia ser à tarde, quando o filho estava na escola, o momento ideal. Ivan estudava a noite. Estava na metade do curso de direito e trabalhava pela manhã em um escritório no qual já ia adiantando seu estágio. Rosa chegava do Fórum logo depois das quatro. Telefonou e pediu que Ivan viesse vê-la nesse horário e nada contasse a Francisco. Ele podia? Sim, claro, estaria hoje mesmo em sua casa.
__Dona Rosa... Era Ivan que chamava e ia entrando.
Rosa o esperava na ampla e florida varanda logo após o pequeno jardim. Ivan parou ao vê-la, surpreendido pelo novo visual que Rosa apresentava. Pareceu levar um choque. Comentou:
__Quase
não a reconheço. Está diferente. Aconteceu alguma coisa?
__Muita
coisa, Ivan. Sente-se aqui, apontou uma cadeira perto da sua.
_ Achou
que estou diferente... Diga, pra melhor ou...
__Está muito bonita. Parece mais moça, falou, meio sem jeito.
__Ainda bem, brincou Rosa e prosseguiu pedindo que escutasse tudo o que tinha para contar.
Durante meia hora Rosa discorreu sobre os últimos acontecimentos, motivos que a levaram a procurá-lo. Foi um desabafo total, de que tanto sua alma estava necessitando. Ao final, ambos choravam. Ela, copiosamente. Ele, discretamente. Fungava e enxugava uma lágrima na fonte, impedindo que corresse pela face contrita. Mas, perguntava-se, o que poderia fazer por essa mulher, mãe de seu querido amigo, a qual aprendera a admirar e gostar tanto durante aqueles anos que freqüentava a sua casa. Queria tanto poder ajudá-la! Mas, quem era ele, pobre garoto, diante dessa mulher vivida e sofrida? Porém, o que quer que ela necessitasse, faria. Moveria céus e terras para secar as lágrimas daquele bonito rosto. Se fosse possível, arrancaria do peito o próprio coração para salvar-lhe a vida.
__
Como posso ajudar? Por favor, diga em que posso ser útil.
__Não
sei ainda. Mas, Ivan, ouvindo-me, você nem pode imaginar o quanto já ajudou.
Eu não tinha contado a ninguém, guardava só para mim, e poder falar sobre
isso deixou minha alma tão leve! Obrigada por saber e se dispor a ouvir-me.
__Mas
quero e posso ajudá-la. Vamos correr atrás desse transplante. Vamos tirar da
pauta esse capítulo de morte. Você não pode morrer.
Ele, que sempre a chamava de senhora, acabara de dizer você e foi isso, talvez, que encorajou Rosa a decidir-se e abrir totalmente o jogo. Queria falar de suas decisões. Sim, pensar no transplante era importante, mas a improbabilidade de dar certo, deixava-o em segundo plano. Mais importante para ela era, agora, garantir a sobrevivência do filho. O que ele podia fazer?
__Tudo! E Rosa contou-lhe a segunda parte de seu plano.
Ivan estava estupefato, sem saber o que falar, assim, pego de surpresa por algo tão inesperado. Rosa pediu-lhe que não se preocupasse em responder nada, nesse momento. Fosse para casa. Pensasse muito bem sobre tudo o que falaram e depois a procurasse com uma resposta franca. Não fosse levado por sentimentalismos. Tentasse ser o mais realista possível.
O moço partiu levando no coração uma estranha mistura de sofrimento e felicidade. Ela pensara nele para uma decisão tão séria de vida e morte. Sentia-se importante como nunca imaginara em toda sua vida. Tudo aquilo era demais para uma rápida compreensão. Precisava de tempo. Tempo para se reorganizar e chegar a alguma decisão.
Rosa, tão mais aliviada, tentava analisar as reações de Ivan, querendo adivinhar o final daquela história. Não sabia o que esperar. Além da vontade do rapaz havia a opinião de seus pais, seus irmãos. Não, não sabia prever qual seria a resposta àquela proposta de casamento. Era preciso aguardar.
Por três dias Ivan desapareceu. Até Francisco já questionava sobre onde andaria o amigo. Rosa começava a pensar que se enganara a respeito do moço. Talvez tivesse ficado tão apavorado que nunca mais voltasse àquela casa, o que seria uma pena, pois Francisco sentiria demais a falta do amigo. Teria Rosa cometido um grande erro de avaliação da natureza humana? Daquela, pelo menos, a qual imaginava conhecer tão bem?
Naquela tarde chegava do trabalho um tanto desanimada e Ivan lá estava, sentado na varanda, esperando por ela. Rosa foi ao seu encontro preparada para qualquer resposta que ele tivesse para lhe dar. Bom que ele tenha dado a si mesmo bastante tempo para pensar. Era uma decisão muito comprometedora. Envolvia o transcorrer de toda uma vida. Bem, fosse o que fosse, saberia agora.
Ivan lhe estendeu ambas as mãos e foi com voz emocionada que disse sim. Colocava aos pés de Rosa toda a sua vida, com alegria e amor. Rosa abraçou-o rindo, chorando, agradecendo a ele, a Deus, à vida!
Mas o moço impunha uma condição... Assim que o casamento se realizasse tratariam seriamente de virar de pernas para o ar o mundo todo e conseguir o transplante. Rosa concordou, embora pouca esperança tivesse com relação ao sucesso desse propósito. Não tinha a menor importância. O futuro do filho estava assegurado. Isso sim era importante.
Agora, vinha outra etapa do plano. Levar ao conhecimento de Francisco. O que falaria? Como agiria? Esconderia a sentença de morte? Fingiria um namoro que nunca houve? Como reagiria Francisco? Não tinha a menor idéia. Quanto ela e Ivan falaram a respeito! Fizeram mil conjeturas. De qualquer modo ficou claro que, quanto mais usassem de franqueza, falassem a verdade, seria melhor para o rapaz. Era rezar para que ele compreendesse e aceitasse.
No dia seguinte Rosa disse ao filho que iria preparar um jantarzinho especial e sugeriu que ele convidasse o seu melhor amigo para participar do evento e que após o jantar poderiam sair para passear, pois era sábado.
__Convidarei o Ivan, está bem?
__Está perfeito _ concordou Rosa, contente, vendo naquele pequeno jogo um sinal de bom agouro.
Ivan chegou e ficou, como sempre, com Francisco, na sala do computador. Rosa preparava o jantar e em torno dela uma trepidação no ar. Um jeito ansioso e alegre de expectativa. Parecia uma jovem adolescente em seu primeiro encontro. Todas as coisas estavam mais bonitas e ela sentia vontade de cantar. Rosa não conseguia compreender aquela sensação de primavera chegando em seu coração. Afinal, Ivan não era nenhuma novidade em sua vida e esse casamento devia manter-se apenas como um negócio que a todos interessava. Por que então essa agitação, esse fremir de alma? Que primavera era essa que ameaçava irromper dentro e em torno de si? Estavam em pleno verão!
Mesa posta, travessas coloridas e olorosas, Rosa chamou os meninos. Foi um ótimo jantar, com muita conversa e brincadeiras. Mal terminavam e já Francisco puxava Ivan para sair. Foi necessário que Rosa ficasse muito firme para fazê-lo entender que teria de esperar um pouco. Ela e Ivan queriam, antes, conversar com ele. Tudo bem. Foram para a sala, sentaram-se, forçando Francisco a aquietar-se um pouco e ouvi-la.
Então Rosa perguntou se ele lembrava que, dias atrás, ela havia ido ao médico, porque andava cansando-se muito facilmente. Francisco lembrava. Rosa contou que o médico dissera que ela estava muito doente, que seu coração estava muito doente e, talvez, não continuasse batendo por muito tempo.
__Você vai morrer? É isto que você quer me contar?_ ficou em pé, agitou-se descontroladamente e falou:
__Não pode! Você sabe que não pode! Como pode pensar que vai me deixar aqui, sozinho? Se você morrer eu pego uma faca e... Fez um gesto de cortar a garganta.
__Meu
filho, só Deus pode decidir quando uma pessoa vai morrer.
Eu
estou viva e se Ele decidir que devo continuar vivendo vamos descobrir que
esse médico
não sabe de nada. Não é mesmo?
__É...
É mesmo... E Francisco ria. Esse
médico não sabe de nada!
__Porém,
Francisco, se Deus decidir que é a minha hora de morrer, médico nenhum do
mundo poderá dar jeito. Concorda com a mamãe?
__Acho
que sim. Deus sabe mais, não é mãe?
__
Sim, e se ele decidir que você tem de viver...
__Aí,
eu tenho de viver...
__Então,
meu filho. Como não sabemos o que vai acontecer, eu e o Ivan tomamos uma
decisão para que as coisas continuem, para você, como sempre foram.
__O Ivan vai ficar comigo? Mas ele não trabalha no Fórum. Não tem dinheiro nenhum esse meu amigo. Falava gracejando.
Agora Rosa e Ivan iam explicando ao rapaz os detalhes técnicos do plano e quando chegou o momento de falar no casamento, os dois emudeceram. Foi Francisco que declarou.
__
Basta que vocês se casem!
Caíram todos na risada e Francisco achou uma excelente idéia. Assim nunca perderia esse amigão. Para ele estava tudo muito bem. Na verdade o que estava lhe importando mesmo era sair, ir passear com Ivan.
Que alívio. Rosa respirou profundamente e despachou os meninos, aconselhando juízo e que Francisco voltasse logo para casa.
Agora era procurar o advogado certo, tirar os papéis no cartório de paz e marcar a data do casamento. Precisavam esperar algumas semanas, pois teriam de correr os proclamas. Depois preparar a festa que coincidiria com o aniversário de Francisco. Se tudo desse certo, os dois eventos seriam no mesmo dia. Pequena nuvem toldava ainda o brilho total do sol. E os pais de Ivan? Ele não tocara no assunto. Precisava conversar com Ivan. Ele veio à tarde. Parecia também muito feliz. Disse à Rosa que foi difícil fazer com que os pais entendessem, embora nada tivesse falado sobre a parte racional daquele pacto. Disse apenas que se casariam porque ambos estavam apaixonados. Dessa maneira ficava livre de dar muitas explicações. Afinal de contas, era maior de idade e, de certa forma, independente, não fosse pelo fato de o pai pagar seus estudos. Aliás, disso o pai já havia tirado o corpo. “Se era tão independente que se mantivesse integralmente.” Mas Ivan disse que já conversara no escritório e trabalharia também à tarde. Ganharia o suficiente para se manter. Rosa concordou com ele, mas exigiu aceitasse que a faculdade ela pagasse. Ivan relutou, mas acabou aceitando. Se essa era a vontade de Rosa, tudo bem. Só queria vê-la feliz.
Olharam-se demoradamente e algo novo, bonito e promissor parecia brotar entre eles. Ivan saiu apressadamente e Rosa ficou levemente inquieta, palpitante e confusa. Que estranhos sentimentos eram esses que a deixavam tão parecida com Francisco? Nem a eminente morte a assustava. Permitia-se usufruir uma felicidade infantil, desconhecida, inquietante, mas tão agradável! Tinha esse direito. Agora, cada um daqueles dias era o último. Não se repetiriam nos próximos anos. Tinha de aproveitá-los ao máximo. Espremer cada dia até tirar a última gota de felicidade. Compreendia cada vez mais porque Francisco estava sempre tão feliz. Se cada dia é um pássaro, e o dia de hoje é o cativo, é aquele que temos nas mãos, devemos mantê-lo sadio, alimentá-lo, permitir que ele cante e seja feliz. Ele morrerá quando o dia se for, mas na manhã seguinte outro nascerá e novamente viveremos apenas para cuidar do pássaro cativo. O de ontem não mais nos dará cuidados, pois já se foi. O pássaro do amanhã só chegará amanhã. Nunca ela compreendera tão bem a filosofia de vida do filho como agora e punha em dúvida aquilo que sempre julgara ser um retardamento mental. Hoje ela começava a chamar de sabedoria, esse modo de viver.
Os dias iam passando, assim, levemente e Rosa não pensava mais nas palavras do médico. Depositava nas mãos de Deus toda e qualquer inquietação. Decidiu não permitir que o medo tomasse o menor espaço em sua vida. Aprendera a viver! Pena que tenha sido apenas no final da vida. Mas tudo bem. Agradecia a Deus, pois tantos existem que morrem, em triste agonia, sem nunca ter provado de um instante assim de descuidosa alegria de viver. Só as crianças conhecem essa mágica porque têm esse dom natural.
Algumas vezes Ivan quis falar a respeito do transplante, mas Rosa impedia-o. Não haviam combinado pensar nisso após o casamento? Ivan concordava, mas temia estarem perdendo um tempo precioso. Rosa o tranqüilizava. Tudo tem o seu tempo. Os problemas do amanhã só acharão a solução no amanhã. Pra que pensar neles hoje? Ivan tinha de concordar com as sábias palavras e aos poucos ia também apreendendo a viver.
Rapidamente chegava o dia marcado. Dia do aniversário de Francisco. Rosa não queria que fosse uma festa de casamento no dia do aniversário do filho e sim uma festa de aniversário em que, assim como por acaso, aconteceria um casamento. Alguns parentes de Ivan, poucos amigos de Rosa, o advogado que daquelas vidas iria participar ativamente no futuro e muita gente jovem, amigos de Francisco e Ivan. O próprio bolo era com velinhas e não aquele convencional casalzinho de noivos. Tudo muito original e descontraído. Não haveria viagem de lua-de-mel. Os amigos não compreendiam, mas também seria demais chegar a esse ponto! Já que tudo estava sendo tão diferente dos casamentos tradicionais que aceitassem também essa novidade. Foram, porém obrigados a mostrar o recém - decorado quarto nupcial. Era uma enorme suíte, maravilhosamente mobiliada e, a cama imensa, coberta por ricos edredões, foi objeto de gracejos. Por que uma cama tão grande? Ivan ia passar a noite toda procurando pela noiva. Todos riam, mas ignoravam o quanto estavam certos. Ivan iria passar, não a noite toda e sim, muitos e muitos dias procurando pela esposa. Finalmente e felizmente acabaria por encontrá-la.
Entretanto, o tempo voa sobre dias felizes e quando deram por si, mais de três meses já se haviam passado, desde a sentença médica. Rosa não queria nem falar sobre isso, mas Ivan cobrava fosse cumprido o trato. Não dava sossego à Rosa. Acontece que ela não se sentia nem um pouco doente. Na verdade nunca estivera tão bem. Temia voltar ao médico como se lá fosse encontrar, reservados para ela, todos aqueles maus presságios. Não queria pensar coisas tristes. Implorou que Ivan esperasse passar as férias que se aproximavam. Iriam, os três, para uma maravilhosa praia, no litoral norte. Convenceu-o, prometendo que, ao regressar, iria ver os médicos e fazer o que se fizesse necessário. Ivan, que só queria ver a sua Rosinha feliz, concordou.
Rosa não
sabia se porque estivera curtindo a nova e bela vida e andara preocupando-se
menos com Francisco ou se a própria maturidade chegava ao seu tempo, a
verdade é que o filho mostrava-se mais independente e responsável. Aquele
ambiente feliz, sem mágoas nem cobranças parecia favorecer o pleno
desenvolvimento de Francisco. Talvez, o exemplo que Ivan, sem querer, ia-lhe
proporcionando estivesse também influenciando o rapaz que parecia desabrochar
para a vida. O fato é que, desde que ela abrira mão de tentar ser Deus e
deixou a quem de direito exercer essa
função, tudo fluía com maior perfeição.
E era isso bastante lógico e natural.
Foram férias magníficas como nunca Rosa sonhara, um dia, ter. Corria pela praia, nadava mar adentro e Ivan mostrava-se preocupado com tais excessos. Rosa fugia de suas recriminações. Usufruía a vida como uma deusa a quem tudo fosse permitido. Francisco namorava todas as meninas da praia e Ivan, circunspecto, vigiava a ambos. Mas as férias terminaram e tinham de voltar.
Rosa, bronzeada pelo sol, faces coradas, cabelos soltos ao vento, era a própria figura da saúde. Ivan olhava-a, comparando-a com aquela Rosa antiga que conhecera e começava a duvidar do diagnóstico médico. Começava a concordar com Francisco. Esse médico não sabe de nada! Mesmo assim, não deixaria Rosa escapar do seu compromisso de voltar a ver seu médico logo que chegassem. Nunca se perdoaria se, por descaso, o transplante se tornasse impossível. Não perderia a sua Rosa.
Naquela noite, em casa, Rosa despertou sentindo-se mal. Tinha dificuldade para respirar. Transpirava abundantemente e empalidecia sob o dourado que o sol lhe dera. Ivan desesperou-se. Quis levá-la imediatamente para o hospital. Sem forças para reagir, Rosa deixou-se levar. Internaram-na imediatamente e seu médico foi chamado às pressas.
Ivan viu o dia amanhecer através das vidraças daqueles corredores frios. Ninguém aparecia para trazer notícias. Ivan estava ficando louco. Francisco acordaria e não os encontraria em casa. Começou a bater nas portas e gritar por satisfações. Logo um médico jovem surgiu para pedir que se acalmasse. Foi atrás de notícias. Voltaria logo.
Em breve retornava dizendo que Rosa passara por diversos exames e agora dormia calmamente. Seu médico já vinha vê-lo e seria mais esclarecedor. Minutos depois chegava o bendito médico para conversar com Ivan, que desejava saber de tudo e ao mesmo tempo tinha vontade de sair correndo dali. O que iria ouvir? Estava morrendo de medo.
O doutor olhava para o aflito moço e afagava a barba, perdido em seus pensamentos. Parecia estar escolhendo as palavras. Ivan pensava: é bom que pense bem mesmo o que vai falar. Sentia que era capaz de matá-lo se dissesse que a sua Rosa ia morrer. Começou por perguntar há quanto tempo estavam casados e por que Rosa não lhe comunicara essa intenção de casar-se? Ivan estava perdendo a paciência. O que tinha ele a ver com isso?
__Doutor,
pelo amor de Deus, como está minha mulher?
__Meu
filho, pouco posso falar nesse momento. Outros exames deverão ser feitos. No
momento ela está bem. Passou a crise. Na verdade foi uma crise grave, mas ela
está bem, agora.
__Isto
quer dizer que ela está fora de perigo?
__Perigo do quê? De morrer? Não, não, nem pense nisso. Pra falar a verdade... Bem, depois dos outros exames poderei ser mais explícito. Por enquanto, fique calmo. Ela está muito bem, eu garanto. Ivan tranqüilizou-se. Mentalmente fez uma breve oração, agradecendo àquele Deus da sua Rosa. Era também o seu, mas dela era com maior convicção.
Quando já passava das nove horas procurou um telefone para falar com Francisco e pedir que viesse fazer-lhe companhia, pois dali só sairia depois de ver Rosa. Logo Francisco chegou e ficaram ambos a espera de poder ir ao seu quarto. Algum tempo depois vieram chamá-los, que Rosa queria vê-los. Entraram cautelosamente e o que viram foi inesperado e surpreendente. Rosa, recostada nos travesseiros, tomava um maravilhoso desjejum e parecia mais radiante que nunca. Brincou com eles, desculpou-se pelo susto e garantiu que estava ótima. Ivan não entendia mais nada. O médico veio e quis ter, com todos, uma longa conversa. Falou que quando Rosa o procurou, há mais de quatro meses, os exames efetuados revelaram a existência de um grave quadro de endocardite e que toda a área cardíaca estava definitivamente comprometida, a ponto de ter ele dado aquele diagnóstico de morte iminente. Disse ter falado em transplante, mas que não acreditava em absoluto nessa possibilidade. Na verdade, o caso de Rosa era terminal. Fora obrigado a contar-lhe que teria no máximo seis meses de vida porque sabia que Rosa não tinha ninguém no mundo e precisava resolver muitas coisas antes de partir, principalmente com relação a Francisco. Na verdade, como ela não voltara ao consultório, e nunca respondera aos recados que deixava em sua secretária, chegara a pensar que ela já havia falecido. Nesse momento, Rosa não conseguiu conter uma gargalhada. O médico voltou-lhe olhos severos. Rosa conteve o riso na fisionomia divertida, como se tudo aquilo não passasse de uma grande brincadeira.
__ O senhor não se enganou completamente, doutor. Aquela Rosa morreu mesmo! - confirmou a moça.
O médico prosseguiu dizendo que não conseguia explicar o fato. Se houve um erro de diagnóstico ou se um milagre acontecera. A verdade é que Rosa tivera, esta noite, uma crise asmática provocada por algum tipo de alergia. Disse que seu coração estava absolutamente restabelecido e que o resto, deixaria que a própria Rosa lhes contasse. Já lhe dera alta e podia ir para casa.
Ivan e Francisco não cabiam em si de tanta felicidade. Queriam saber o que mais Rosa tinha para lhes contar, mas a moça fechou-se em copas e expulsou-os do quarto, pois queria vestir-se.
Para
aquela noite preparou um jantarzinho especial fazendo suspense sobre algo que
teria a revelar, ainda esta noite. Quando viu que os rapazes já estavam
perdendo a paciência com ela, falou:
__Francisco, mamãe quer contar que encomendou para você um presente
muito especial. Em breve, você ganhará um irmãozinho.
Propositadamente não olhava para Ivan. Assustou-se ao ouvir que ele deixava-se cair pesadamente em uma cadeira. Foi só risada. Pareciam três crianças brincando de roda. Alegria total.
Se
perguntássemos à Rosa qual a sua opinião a respeito daquilo que o médico
dissera, ela falaria: __Não
sei se houve um erro médico. O que eu sei é que meu coração sofria de mágoa
crônica e, graças aos dois homens da minha vida, esse mal se transformou em
esperança pura e ninguém morre disso!
FIM